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Há mais de um ano que o setor dos eventos desportivos – e não só – se encontra condicionado, não se sabendo ainda em concreto quais (e quantos) serão os agentes e entidades que vão conseguir manter o fôlego e aguentar até ao momento da retoma plena da atividade.

Embora neste momento, de uma forma geral, a perspetiva de retoma seja já com base num “quando” e não num “se”, como se discutia há poucos meses, existem fatores que sabemos terem de ser encarados como desafios para o setor, como a crise económica que ainda não atingiu, nem de perto nem de longe, o seu “pico” e que se vai manter durante muito tempo, as restrições e limitações de viagens e de circulação de pessoas (internacionais e intercontinentais) e a retoma da confiança das pessoas a voltarem a estar juntas em eventos de participação massiva.

Por outro lado, existem outros fatores que levam a ter alguma esperança na retoma de uma atividade e de um setor que, ao que tudo indica, terá um dos papéis mais importantes – se não mesmo fundamental – na retoma e recuperação das cidades, regiões e países do ponto de vista turístico e de promoção dos mesmos. Estes fatores têm que ver com o processo de vacinação estar a decorrer bem de uma maneira geral e de, a cada semana, serem aprovadas novas vacinas para administração; os dados que estão disponíveis indicarem que a taxa de contágio em eventos que cumprem as normas e condições de segurança estar perto de zero e com a adaptação e investimento na vertente digital, que já foi feita por parte de muitas organizações. Esta adaptação digital tem vindo a revelar-se como uma mais-valia enquanto complemento aos eventos presenciais – eventos híbridos – e, com isso, a oportunidade das organizações que “apenas” tinham uma edição anual, prolongarem o seu contacto com os participantes e potenciarem a participação em eventos presenciais ao longo de todo o ano, aliado à forte vontade dos participantes (atletas profissionais e atletas do “dia-a-dia”) voltarem a este tipo de eventos.

Para além de todas estas questões práticas, existem 3 conceitos que são importantes para reflexão:

  1. Os eventos desportivos enquanto fator importante e fundamental para o regresso do turismo:


    Quando se der a retoma da atividade é imperativo ir ao encontro das motivações das pessoas. O desporto, a par com a fé, é um forte motivador de mobilização de pessoas. Tal como vimos durante os meses de verão de 2020 – quando houve um primeiro desconfinamento – os eventos desportivos que aconteceram com as devidas restrições impostas à lotação, distanciamento e regras de higiene, foram um forte mobilizador de pessoas, com diversos exemplos de que será esta uma das primeiras e mais importantes atividades a retomarem e a contribuírem para a retoma do turismo nas diversas regiões.
  2. A oportunidade de reinvenção que esta pandemia trouxe ao setor dos eventos, de forma geral, e dos setores desportivos em particular, de forma a fazer um “reset”:

    Esta oportunidade tem que ver sobretudo com duas vertentes. Em primeiro lugar um interesse e preocupação crescente, que surgiu durante todos estes meses de confinamento, com o bem-estar físico e que levou muitas pessoas a retomarem a atividade física ou a olharem para ela como fator integrante das rotinas. Em segundo lugar uma oportunidade para o setor sair mais forte se as organizações assumirem uma postura colaborativa em vez de se verem entre si como concorrentes. Os que sairão vencedores deste processo serão aqueles com a capacidade de colaborar com os que anteriormente eram considerados concorrência, aqueles que deixarem de pensar em ser “heróis” enquanto individuais.

     

  3. Assumir uma postura “Anti frágil” ao invés de uma postura passiva de resiliência em relação ao quadro atual e futuro:

Nassim Taleb (analista e matemático Líbano-americano) traz-nos este conceito que é pertinente analisarmos, do ponto de vista que a adoção de uma postura/comportamento anti frágil é fundamental para os gestores de eventos desportivos neste momento. De forma simplista consiste em fazer algo, em agir, em pensar “fora da caixa”, ao contrário de adotar estratégias que nos levem a “aguentar” e a passar por esta fase simplesmente à espera que as “condições” melhorem.

Os fatores que determinam se uma organização/setor assume essa postura “anti frágil” são a qualidade das relações e a confiança criada; a qualidade da informação que é transmitida (como a partilhamos e o trabalho conjunto que é feito) e a identidade enquanto setor que se relaciona com a postura colaborativa intra setor e com outros setores, como a saúde e a educação, por exemplo.

Para o sucesso global deste processo, o apoio efetivo das entidades públicas, quer a um nível governamental quer a um nível local e regional, será fundamental para a retoma. Com estes apoios diretos as entidades não estarão unicamente a  impulsionar o setor dos eventos desportivos mas também, simultaneamente, a tratar problemas sociais derivados desta pandemia, nomeadamente problemas relacionados com a saúde mental – como a ansiedade e a depressão – e onde os eventos desportivos são a chave, com as suas características de pertença a um grupo (tribo/família) e de todos os fatores físicos e emocionais que derivam da prática de exercício físico potenciando o bem-estar da população. Também será fundamental as marcas/patrocinadores procurarem, cada vez mais, estar associados a eventos seguros e sustentáveis (social, ambiental e financeiramente) e existem poucos setores para além do deporto que possam oferecer tudo isto.   

Sejamos “Anti-Frágeis”! O sucesso do turismo desportivo e dos eventos estará nas mãos dos audazes, dos ousados, dos que pensarem para lá do “normal” e do adotarem um mindset de “colaborativismo” que resultará numa proposta de valor para o setor.

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