A vigilância médica feita pelas equipas família (médico e enfermeiro) tem sido um dos aspetos mais importantes da prevenção cardiovascular nos cuidados de saúde primários (CSP) em Portugal. Com o bom trabalho que estava a ser desenvolvido pelos profissionais de saúde nesta área, o número de eventos cerebrovasculares (CV) estava a diminuir, mas com a pandemia SARS-CoV-2 o nosso foco mudou, passando toda patologia relacionado com SARS-CoV-2 a ser a prioridade e as doenças CV passaram para segundo plano, com um consequente agravamento deste flagelo.

O número de consultas presenciais durante os anos de 2019 e 2020 reduziu substancialmente e, ao longo de 2021, pouco a pouco, os médicos de família começaram a regressar ao contacto direto com os doentes. O regresso às consultas presenciais tem sido um processo gradual pois se, por um lado, houve menor acessibilidade aos cuidados de saúde, por outro, a população esteve renitente em retornar às unidades de saúde pós-covid.

Neste último ano, além de realizar toda a consulta referente à carteira básica de serviços, foi necessário conciliar a retoma dos mesmos, com as inúmeras tarefas extras que surgiram devido à pandemia, nomeadamente, o atendimento em centros atendimento respiratórios, apoio aos centros de vacinação, gestão de todo acréscimo dos contatos não presenciais já existentes, nomeadamente o email, que por si só passou a ser um consumidor de muitas horas de trabalho, por ter passado a ser um meio de comunicação preferencial para muitos utentes.

Em relação aos estilos de vida da nossa população, voltaram a agravar, as pessoas saíram menos de casa, ficaram mais ansiosas, mais tristes, praticaram menos exercício físico e descuraram a alimentação. Será necessário investir na literacia em saúde, reforçar estilos de vida saudáveis e voltar a facilitar o contato presencial entre médico e doente, fortalecendo novamente a relação de confiança entre ambos, chave fundamental para uma adesão terapêutica com sucesso.

Temos uma responsabilidade partilhada, por um lado, os profissionais de saúde no aconselhar, medicar e acompanhar e, por outro lado, os utentes no cuidado pela sua própria saúde, no partilhar dos seus receios e sobretudo no cumprimento da terapêutica prescrita.

Na vigilância dos Diabéticos e Hipertensos (grupos de risco) nos centros de saúde, está preconizado duas consultas por ano com a sua equipa de família, sendo este timing ajustado de acordo com o grau de controlo dos mesmos. No entanto, temos de olhar para estes doentes de uma forma mais holística, englobando-os no seu risco cardiovascular global, pois toda a nossa abordagem, terapêutica e seguimento vai variar de acordo com este risco, justificando o motivo pelo qual um Hipertenso pode ter apenas uma consulta no ano, ou várias consultas num ano de acordo com a avaliação médica.

Tem de haver todo um trabalho conjunto, pois só assim conseguimos diminuir toda morbi-mortalidade das doenças cerebrovasculares e melhorar a saúde e qualidade de vida da nossa população.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a ACTIVA nem espelham o seu posicionamento editorial.

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