o diagnóstico da anemia e da deficiência de ferro é muito fácil de fazer: basta uma pequena análise de sangue
Foto Pexels/ Karolina Grabowska

Foi em 2016 que, na sequência da realização do estudo EMPIRE, se ficou a saber que a anemia afetava cerca de 2 em cada 10 portugueses, um valor muito superior ao estimado. Seis anos depois, esta continua a ser um problema de saúde pública e não tem sido por falta de divulgação.

Ao longo dos últimos seis anos, o Anemia Working Group Portugal (AWGP) manteve, tal como lhe competia, a sua missão de divulgação e de alerta. Conseguiu até levar o assunto à Assembleia da República que, em outubro de 2021, recomendou a instituição do Dia Nacional da Anemia (26 de novembro). Mas, por força da pandemia, o tema acabou por ficar para segundo plano. Agora, é hora de voltar novamente as atenções para o que continua a ser um grande problema de saúde pública.

É preciso reforçar a sensibilização dos profissionais de saúde e da população para o problema da anemia. É preciso alertar para a sua elevada prevalência na população adulta e colocar, no foco da prática clínica, a importância de diagnosticar precocemente a anemia e a deficiência de ferro, sobretudo nas populações mais vulneráveis, como é o caso das mulheres, das grávidas e dos idosos.

É ainda preciso que se façam mais iniciativas de rastreio e não há razões que justifiquem que assim não seja. É que o diagnóstico da anemia e da deficiência de ferro é muito fácil de fazer: basta uma pequena análise de sangue, que nem sequer é dispendiosa.

Finalmente, é preciso sensibilizar a população em geral, já que, na minha opinião, os portugueses não são suficientemente conhecedores dos sintomas e sinais da anemia e da deficiência de ferro e não os identificam eficazmente. O problema, aqui, é a literacia em saúde, ou a falta dela, sendo necessário mais investimento nesta área.

Até porque estes sinais e sintomas instalam-se, muitas vezes, de modo subtil e progressivo e, por essa razão, não geram sintomatologia suficientemente evidente para que o próprio a identifique. Porém, quando a pessoa se sente debilitada, com fraqueza generalizada, por vezes associando o seu problema a uma eventual depressão, se cansa com demasiada facilidade, tem dificuldades de concentração diariamente no seu trabalho, nota o seu cabelo e unhas quebradiças ou, no caso das mulheres, tem perdas menstruais demasiado abundantes ou inabituais, deve procurar o seu médico, porque pode estar presente uma situação de anemia ou de deficiência de ferro.

E, quando não tratada, a anemia tem implicações diretas na situação de saúde de um doente devido aos sinais e sintomas que ocasiona, mas também pode complicar situações de doença preexistente, como doenças cardíacas ou pode implicar riscos acrescidos de hospitalização e tratamento de um doente cirúrgico.

O primeiro passo é então o do diagnóstico precoce, através da realização de uma simples análise de sangue. Depois, são duas as formas para abordar o problema: tratar a anemia (o mais frequente é administrar ferro) e diagnosticar a sua causa, já que o tratamento depende da causa e existe uma grande diversidade de causas possíveis.

Finalmente, importa ainda referir o PBM (Patient Blood Management), um conceito extremamente simples, mas que tem revelado uma curiosa complexidade na sua implementação. É preciso assumir que o sangue de cada doente é tão precioso, que se devem tomar todas as medidas para a sua preservação e tentar evitar uma transfusão. Porquê? Porque isso vai traduzir-se em tratamentos organizados, com menos riscos e com cuidados de saúde menores, com tempo de qualidade de internamento hospitalar mais curtos e outros ganhos para o doente e para o sistema de saúde, que poupa recursos, poupa sangue e poupa muito dinheiro.

E para isto muito contribui a correção atempada da anemia. Segundo números da Comissão Europeia, em 2017, na União Europeia, 20 a 40% das cirurgias major eram efetuadas em doentes com anemia não corrigida, o que significa que várias oportunidades para a corrigir foram desaproveitadas desde o diagnóstico inicial até ao bloco operatório. O que podemos fazer? Começar por corrigir a anemia logo no início; organizar os cuidados entre os médicos assistentes na comunidade e os serviços hospitalares, para que todos se empenhem em tratar cada um em particular, no sentido de não ser operado em situação de anemia. É preciso que a Patologia Clínica (Laboratório), a Imuno-hemoterapia, a Anestesiologia e as especialidades Cirúrgicas e Médicas se organizem em torno deste princípio. É preciso que as direções clínicas liderem este processo e que as administrações incentivem a implementação destas práticas.

João Mairos, presidente do Anemia Working Group Portugal

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a ACTIVA nem espelham o seu posicionamento editorial.

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