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Mukhtaran Bibi transformou a dor em esperança

Foi violada em 2002, a mando do conselho tribal da sua aldeia, mas teve coragem de denunciar os agressores à Justiça. Hoje, luta pelos direitos das mulheres do seu país e abriu três escolas que dão educação a mil crianças.

Cristina Correia/ACTIVA

Se o Prémio Mulher Activa pudesse ser atribuído a cidadãs de todo o mundo, a paquistanesa Mukhtaran Bibi, 34 anos, também conhecida como Mukhtar Mai ('grande irmã respeitada' na sua língua, o urdu), seria uma séria candidata ao primeiro lugar. A razão? Transformou um sofrimento pessoal inimaginável em dádiva para com as mulheres e crianças do seu país e em exemplo para o mundo inteiro.

Sentença: violação colectiva
Quando, em 2002, o seu irmão de 12 anos foi acusado de alegadamente ter violado uma rapariga da sua aldeia, ninguém podia prever o horror que se seguiria: Mukhtaran foi falar com os membros do conselho tribal para resolver a questão, mas, em vez de um consenso pacífico, decidiram que o castigo para o 'crime' do adolescente seria a violação colectiva de Mukhtaran por seis homens da aldeia. É raro as violações constarem do rol de castigos tribais aplicados a mulheres e suas famílias, confirma a paquistanesa.

'Ameaçaram-me de morte...'
Depois do sucedido, muitas pessoas demonstraram a sua solidariedade. 'Tinham medo de falar, mas a maioria eram apoiantes que queriam ajudar.' Foram estes amigos e vizinhos que a incentivaram a esquecer a ideia de tirar a própria vida. A maior parte das mulheres que passam pelo mesmo calvário decide suicidar-se, para fugir a um destino de desonra e lavar a honra da família, em vez de ir em frente com a queixa criminal contra os seus violadores. Mukhtaran registou queixa na polícia. O caso foi denunciado também na Imprensa nacional e internacional. 'Os homens que me violaram ameaçaram-me de morte. Pensei que iria morrer, mas depois percebi que, se isso acontecesse, era melhor que fosse a lutar', contou à ACTIVA. Chegou a ser acusada de promover uma má imagem do país ao contar a sua história aos jornalistas estrangeiros.
Depois de considerados culpados pelo tribunal, que condenou cinco homens a penas de prisão e um à pena de morte, os réus recorreram da sentença e estão agora em liberdade condicional. 'Ainda estou à espera de uma sentença.' Mukhtaran sabe que a sua voz inconformada representa uma ameaça para os velhos chefes tribais, que ainda detêm grande poder a nível local. Por isso, o governo assegura-lhe segurança pessoal a tempo inteiro, dentro e fora do país.

Em vez de se vingar decidiu educar
Com a indemnização que recebeu depois do julgamento, Mukhtaran poderia ter começado a vida de novo noutro lugar. Em vez disso, escolheu usar o dinheiro em prol da sua comunidade. Semanas após o julgamento, já estava a trabalhar no projecto de construção de duas escolas, uma para meninos e outra para meninas que, tradicionalmente, são impedidas de estudar (como, aliás, aconteceu com ela). 'Tive a ideia de construir uma escola para que as crianças aprendam a respeitar o próximo e a não discriminar ninguém. É mais difícil para alguém que não estudou saber distinguir entre o bem e o mal', observa Mukhtaran.
Começou com três alunos, em 2002. 'Hoje temos cerca de mil crianças a frequentar três escolas duas para raparigas e uma para rapazes. Demorei dois anos a convencer os pais. Lá, aprendem inglês, urdu, ciências, matemática. Damos muita importância ao ensino dos direitos humanos.'
Começaram por pagar as despesas de estudo a uma criança por agregado familiar. Hoje, todos os alunos têm propinas, livros e uniformes pagos e um serviço de transporte gratuito. Na altura das colheitas, as crianças são dispensadas das aulas para ajudar as famílias nos campos.

'Agora as mulheres já se fazem ouvir'
Com a instituição que criou, a Mukhtar Mai Women's Welfare Organization (MMWWO), está a assistir-se a uma 'pequena revolução' na sua terra natal: 'As mulheres são mais independentes e os homens aceitam melhor os direitos delas. Estão a ganhar coragem e a pedir direitos, liberdade e educação iguais.' Uma das prioridades da sua instituição é dar-lhes ferramentas para ganharem alguma independência económica em relação a pais e maridos. Esta é a única maneira de escaparem a cenários de pobreza e violência. No centro que criou as senhoras aprendem a fabricar roupas que depois vendem.
À sede do MMWWO chegam, também, queixas de violência doméstica de mulheres de todo o país. No Paquistão rural, as mulheres são moeda de troca nas ligações da família com o resto da comunidade. 'A situação é pior no interior, onde ainda vive 70% da população', diz Mukhtaran. 'As mulheres não têm o direito de escolher o próprio marido, devem aceitar aquele que os seus pais lhe impõem. Muitas são vítimas de maus-tratos. Dar a rapariga em casamento a outra família para resolver conflitos é uma prática comum para manter a paz. A mulher não tem direito a uma opinião; são elas quem sofre mais.'

Cuidados de saúde para todos
Mas não fica por aqui o trabalho de Mukhtaran. A MMWWO construiu um hospital para dar assistência médica à população mais carenciada e das zonas mais remotas, que normalmente não tem acesso a cuidados médicos. Além disso, estão a ser criados abrigos para mulheres vítimas de violência, onde estas podem obter ajuda legal.
Em Novembro do ano passado, com ajuda da francesa Marie-Thérèse Cuny, Mukhtaran decidiu publicar a sua história no livro 'Desonrada', editado já em Portugal pela Livros do Brasil.

Portugal também a premiou
A cobertura que os meios de comunicação fizeram do caso de Mukhtaran Bibi valeu--lhe o reconhecimento internacional pela sua luta como activista dos direitos humanos. A revista norte--americana 'Glamour' considerou-a 'Mulher do Ano' em 2005. No mesmo ano, o governo paquistanês atribui-lhe a Medalha de Ouro pela sua coragem e, em 2006, Hillary Clinton entregou--lhe, nos Estados Unidos, o prestigiado Global Leadership Award. Em Março último, Muktharan veio a Portugal receber o Prémio Centro Norte--Sul do Conselho da Europa numa cerimónia que decorreu na Assembleia da República. 'Fiquei muito feliz por receber estes prémios. Aprendi muito com as pessoas que conheci em todo o mundo.'

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