activa

Perfil

Estilo de Vida

Entrevista: Alice Vieira

Jornalista, escritora, bebedora de café, inspira-se entre Érico Veríssimo e George Clooney. Começou a escrever porque a filha disse que já não tinha mais livros para ler. Hoje colabora com o Jornal de Notícias, a Activa e com a revista Audácia dos Missionários Combonianos. Para além de ser fiel a cinco editoras… Definitivamente, esta mulher não pára.

Miguel Ferreira da Silva/Casa Cláudia

Alice Vieira

Alice Vieira

Luís Coelho/Casa Cláudia

Como começou a escrever romances?

Nas férias. Foi em 1979 e a minha filha, na altura com 10 anos, disse-me que já não tinha livros para ler. E eu que os queria quietos e sossegados, pedia-lhes para me contarem o que lhes tinha acontecido na escola, e ao fim da tarde escrevia um bocadinho. Foi assim durante 20 dias.

20 dias para escrever o primeiro livro?

Os jornalistas não têm mais dias de férias.

E o que a fez continuar?

Esse ano era o Ano Internacional da Criança e a editora Caminho promoveu um concurso para o melhor texto para crianças e jovens desse ano. Mandei e ganhei. A partir daí nunca mais tive sossego. Julgava há 20 anos que trabalhava muito, mas agora é que trabalho muito mais. São muitos patrões a mandar em mim. Mas lido bem com isso, porque sempre trabalhei em jornais diários habituei-me a entregar as coisas no prazo.

Trabalha em casa?

Só sei trabalhar em casa. Adoro cafés e esplanadas para tirar notas. Mas com continuidade só em casa. No portátil que nunca saiu da mesa, naquela secretária, daquele lado da janela que dá para a rua.

O que vê da janela?

O hospital. É um sexto andar de esquina. Há pouca visibilidade por causa dos carros estacionados e há choques a todo o momento. Isto em frente ao hospital. Mais abaixo fica a maternidade. Só ambulâncias a passarem. Mas dou-me muito bem com o barulho. O silêncio é que me perturba. O barulho é estimulante.

O que é que tem sempre de ter à mão?

A minha floresta, que são as minhas plantas, o leitor de CDs, e a máquina de café ao lado. E depois, na parede, a minha inspiração, dois homens lindíssimos. As fotografias do Érico Veríssimo, escritor brasileiro que mais me influenciou, e do George Clooney. O homem perfeito está algures entre os dois.

Escreve, então, na sala?

É ali que eu sei trabalhar. Ali é que as coisas continuam, onde escrevo mesmo a sério. É uma sala grande que serve para tudo. Os meus netos quando vêm a Lisboa ficam lá, depois tenho um piano, quando os meus filhos eram pequenos tinham um cesto de basket na parede... é o sítio onde eu estou bem. E depois preciso de muitas fotografias. A sala cheia de fotografias. E preciso daquela gente toda a olhar para mim. Escrever ao pé deles, com os meus objectos. A minha filha está sempre a dizer que eu estou cheio de tralha. Mas todos aqueles objectos têm um significado. Está tudo ali ao pé e eu preciso daquelas coisas para trabalhar. E ainda uso muito papel, escrevo muitas notas, muitas cartas, ainda dou muito trabalho aos correios.

Qual é a primeira coisa que faz quando chega a casa?

Bebo um café. Escolho os CDs para trabalhar de noite, Depois vou ao computador ver se há correio. Aderi tardiamente às novas tecnologias, mas rapidamente fiquei adepta.

Costuma ver televisão?

Muito pouca, não tenho tempo. Às vezes, de madrugada, o Dr. House. Já reparou que o Hugh Laurie é parecido com o Quique Flores?

Cinema em casa ou mesmo no cinema?

Cinema só no cinema. Mas não vou muito ao cinema. Aí é a minha falha. Vou mais à música, aos concertos às 7 da tarde à Gulbenkian.

Qual é o seu prato com maior sucesso?

Toda a gente gosta muito do meu peru no Natal, que sou sempre eu que faço, o que é chato. Mas faço um bom caril de camarão que às vezes faço também no Natal em vez do peru. E sopas. Confesso que não sou muito boa dona de casa, até porque não tenho tempo, mas gosto muito de fazer malha, que é uma coisa que me distrai. Toco piano, faço Arraiolos e falo francês. Sou muito prendada.

Tem problemas de arrumação lá em casa com livros e CDs?

Com os CDs nem tanto. Com os livros o problema não é não ter prateleiras, é já não ter chão. Tenho o vício de comprar livros. Depois tenho muitos amigos que me dão livros. Depois há as editoras que também me dão livros. Os filhos foram para as suas casas mas os livros ficaram lá em casa. E agora até os netos trazem os livros lá para casa. Cada vez vou tendo mais livros, dou caixotes a bibliotecas e não se nota nada.

Livros e músicas na juventude?

A Clarissa, do Érico Veríssimo, livro a que volto muitas vezes e cada vez gosto mais. Depois os livros do Augusto Abelaira, sobretudo A Cidade Das Flores, um livro que a minha geração leu toda aos 18 anos. Mas há livros aos quais não se deve voltar. Porque foram muito importantes numa determinada altura e depois já não são a mesma coisa. Quanto à música, a minha juventude foi embalada com a música italiana e francesa, com o Brel, o Brassens, Julliette Grecó, Leo Ferre, ainda hoje uma referência.

Disco e filme intemporais?

Estudei piano e sempre ouvi muito música clássica. Há muitas coisas que ficam. Um que me acompanha sempre é o Concerto nº2 do Rachmaninov, que serve de música de fundo ao filme da minha vida, dos anos 40, chamado Breve Encontro, de David Lean.

Como é a sua casa de sonho?

O que eu queria? Muito espaço, ao pé da água. Se puder ser na praia melhor. Já tive quase o ideal de casa, na Ericeira. Só não o era porque era muito pequenina. Sou muito de água.

A nível arquitectónico quais são os seus edifícios favoritos?

Gosto muito de Barcelona e das casas do Gaudí. Em Brasília, separadamente os edifícios do Niemeyer são muito bons mas no conjunto da cidade, odiei Brasília. A arquitectura do Frank Lloyd Wright em Chicago. O Siza tem algumas coisas de que gosto, outras nem por isso. Não gosto de muitos minimalismos.

E há algum que deteste?

Se calhar vou dizer uma barbaridade mas ainda hoje me faz muita confusão as Amoreiras. Se calhar nem é o edifício em si, mas o sítio onde está. Faz-me confusão os edifícios que estão desproporcionados aos lugares. Os edifícios altos. Aquela tendência de edificar em altura. Acho que os edifícios devem ser à escala humana e não à escala dos deuses. Não temos nada de chegar ao céu.

Tem algum arquitecto favorito?

Fernando Távora, Gaudí, e gosto dos estádios de futebol. Sou muito crítica, mas havendo... há uns que acho muito bonitos. Uma das coisas que eu gosto muito do Siza, das primeiras coisas que ele fez, foi a casa de chá da Boa Nova em Leça da Palmeira, que está muito bem integrada no sítio. Quando entramos temos a sensação de estar a entrar no mar. Está-se lá bem, como às vezes não se está nas arquitecturas modernas. Mário Quintana, poeta brasileiro, escreveu: "Não gosto da arquitectura nova porque a arquitectura nova não faz casas velhas".

Alguma cidade que lhe tenha ficado na retina?

Chicago foi uma. E uma das cidades mais bonitas, Buenos Aires, porque tem bocadinhos de Barcelona, de Paris. Duas cidades lindíssimas para mim.

Uma cidade eleita para viver?

Lisboa sempre. Com os buracos, com tudo. Não podendo ser Lisboa, Paris, onde já vivi. Acho que Paris está 'fora' das outras coisas todas. É uma cidade do coração. Mas se há coisas que evoluíram são as pequenas cidades, como Aveiro e Viana do Castelo. Acho que a qualidade de vida está lá mais do que nas grandes cidades. E do ponto de vista arquitectónico, Viana do Castelo está fabulosa, com a parte ribeirinha, a biblioteca do Siza, muito bonita. É onde se vê a boa evolução das cidades.

Três coisas que faltam em Lisboa.

Falta uma boa coordenação de transportes públicos, uma revitalização a sério da Baixa e um aproveitamento a sério da parte ribeirinha da cidade, para que deixemos de estar de costas voltadas para o Tejo.

O que é que mudou em Lisboa dos anos 60?

As pessoas, a cidade, os automóveis, está tudo diferente. Não sou saudosista. Há uma série na televisão que só vi 3 ou 4 vezes porque até o cheiro das ruas dos anos 60 sentia. Perdeu-se o romantismo, mas ganhou-se a democracia.

Se tivesse agora doze anos o que lhe apetecia fazer?

Fugir de casa. Seja com a idade que for. Principalmente com doze anos. Sempre quis ser jornalista porque achava que era uma profissão que nos fazia nunca estar em casa. E enquanto não fugia, escrevia. Comecei muito cedo a escrever para o jornal, há mais de 50 anos. Tinha 13, 14 anos. E nunca mais parei.

Como foi ver o primeiro artigo no jornal? Foi mostrar a toda a gente?

Pelo contrário. Eu detestava que as pessoas lessem. O que é estranho. Eu queria muito escrever para lá, e eles publicavam, mas não queria que as pessoas lessem.

O que vai fazer este Verão?

Trabalhar. Feiras do Livro, livros para entregar, e oito dias de férias na Costa Nova, nos palheiros da Costa Nova, ao pé da Ria de Aveiro. Gosto muito das praias do Norte.

Novos livros na calha?

Tenho um romance histórico passado em Porto Santo e um livro de contos e lendas tradicionais de Timor. Fora o que vão encomendando ao longo do ano.

    newsletter

    Receba GRÁTIS no seu email as notícias que selecionamos para si!