“It’s a Man’s Man’s Man’s World”, cantava James Brown em 1966. O mundo vivia uma segunda onda do movimento feminista, na qual mulheres reivindicavam o direito à igualdade de géneros e o fim da discriminação. Neste mesmo ano, em Portugal, o voto feminino ainda era restrito a mulheres com alto nível de escolaridade ou chefes de família; as carreiras de magistratura, diplomacia, militar e polícia eram proibidas e o código civil, apesar de consagrar a igualdade entre os cônjuges, ainda determinava que a mulher precisava de autorização do marido para firmar um contrato, administrar uma propriedade privada e até para viajar para o exterior. 

Também em 1966, Portugal já tinha visto o primeiro filme realizado por uma mulher – Bárbara Virgínia, com “Três Dias sem Deus”, de 1946; a primeira doutorada em Portugal – Elza Paxeco doutorou-se em 1938 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; a primeira mulher a exercer funções de polícia – Ermelinda Mendes foi alistada em 1930 apesar de não ser permitida a ascensão na carreira; a primeira mulher a ir contra o código civil e tornar-se advogada –Regina Quintanilha conseguiu autorização do presidente do Supremo Tribunal de Justiça para exercer a profissão restrita para homens em 1913. Mulheres retratadas em “As Primeiras: Pioneiras Portuguesas num mundo de Homens”, um livro que é quase como uma enciclopédia  de histórias que podem ter ficado esquecidas para muitas pessoas. 

Bárbara Virgínia – a primeira realizadora de cinema portuguesa

São 59 mini biografias de mulheres que ousaram ir contra a frase de James Brown. Dentro de duas ou três páginas, Luísa de Paiva Boléo e M. Margarida Pereira-Muller escrevem de forma direta quem foram e o que fizeram cada uma destas figuras. “Queríamos um livro fácil de ler, intimista, e que atraísse um grupo etário o mais amplo possível”, explica Margarida. Luísa completa, “Vai ser lido e consultado, queremos que seja uma referência. Se há dúvida, vão saber através deste livro.” 

O livro retrata, por exemplo, a história de Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em Portugal, em 1911, apesar de o voto feminino só ser concedido em 1931. “A lei eleitoral da jovem República Portuguesa concedia o voto a todos os chefes de família que soubessem ler e escrever. Não especificava se os chefes de família eram homens ou mulheres. Carolina Ângelo lutou por esse direito, pois era viúva, mãe e sabia ler e escrever. Conseguiu votar mas… dois anos depois a lei foi alterada para que só homens o pudessem fazer! O poder masculino sentiu-se verdadeiramente ameaçado e tratou logo de travar as mulheres”, explica Maria Margarida. 

Carolina Beatriz Ângelo com os seus colegas do Curso Médico-Cirúrgico, em 1902.

Ao ler as 59 biografias percebe-se que são muitas as áreas em que as mulheres só tiveram destaque no século XX. “Pelo menos para o caso de Portugal, com a Constituição de 1976, todas as carreiras proibidas foram abertas às mulheres.Com o acesso ao ensino sem limitações, o direito de votar e com a sua tenacidade vão ganhando o seu espaço no mundo ocidental”, diz Luísa, que completa: “Na lei portuguesa, foi nos inícios da década de 1990 que os empregadores são obrigados a colocar nos pedidos de emprego M/F, e então sim foram abertas muitas possibilidades às mulheres de escolher a sua profissão. Mas ainda em 2019 há muitas profissões onde os homens dificilmente admitem mulheres.”

Mesmo assim, recorda a autora, o livro também traz histórias de mulheres que, ao contrário do que se pensa, não “lutaram” mas foram convidadas a assumirem cargos importantes. “Posso exemplificar com Maria de Lourdes Pintasilgo (primeira primeira-ministra portuguesa), que foi convidada, e as Procuradora Geral da República (Joana Marques Vidal) e Provedora de Justiça (Lúcia Amaral). Veja o currículo que tinham para assumirem os cargos e, no caso das duas primeiras, a eficiência nos resultados no fim dos mandatos.”

“They say that it’s a man’s world. But you can’t prove that by me”, cantava Aretha Franklin, em 1967. A história não muda, mas é com exemplos que contrariam o senso comum que o futuro é construído. É no que acredita Luísa: “Pode acontecer haver jovens indecisas quanto a uma profissão não “tradicional” e, quem sabe, encontrar nas Forças Armadas uma carreira. Podem ter como exemplo uma Rosa Ramalho (primeira barrista de renome internacional) na área do artesanato. A partir de uma oficina própria vender a partir da internet. Ou arriscar num desporto radical e serem “outra” Elisabete Jacinto (primeira campeã em ralis todo-o-terreno em camião) em breve?” Maria Margarida complementa, ao lembrar que para educar as meninas para o futuro, é preciso mudar a mentalidade presente: “Mas há ainda um grande caminho a percorrer. Não se nasce menina, nasce-se bebé, criança. Mas infelizmente as famílias e a sociedade ainda moldam as crianças com preconceitos de género, não as deixando florir de acordo com os seus dons.”

“As Primeiras: Pioneiras portuguesas num mundo de homens” – A Esfera dos Livros

Luísa V. de Paiva Boléo: Autora das biografias de D. Maria I, D. Maria II, Marquesa de Alorna Querida Leonor e mais de 50 artigos na imprensa em revistas como Máxima, Notícias Magazine, Revista do Público, Expresso e Visão.

M. Margarida Pereira Muller: Jornalista freelancer, autora de seis livros de contos, 26 livros de gastronomia e 10 biografias.

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