Fotografia: Ricardo Santos

*artigo publicado originalmente na revista ACTIVA nº347 (outubro 2019)

Continua o ídolo de muitas mulheres desde o ‘Sei Lá’, e dou-me conta de repente que o ‘Sei Lá’ já tem 20 anos e que estamos todas (mais) velhas. Isto recordou-me uma época em que nos sentíamos (eu e tantas portuguesas como as personagens do livro) giras, ricas, felizes ou prestes a encontrar a felicidade. Vinte anos depois, a euforia abateu e se calhar já não somos nada assim…
Toco à campainha da casa de Margarida, que é luminosa e cheia de quadros e flores. Fico de repente mais animada: afinal, o tempo passou, mas há vida para além do ‘Sei Lá’. O que é que Margarida tem para nos ensinar? Se calhar, a grande lição de percebermos que ser mulher hoje ainda requer esforço, coragem e persistência. Apesar da aparente leveza, da luz e das flores.

Pôs um país a ler…

Acredito que ajudei a isso, mas tive muita sorte com a conjuntura. Se começasse a escrever agora, não teria o sucesso que tive.

Que é que resta em nós, hoje, das raparigas do ‘Sei Lá’?

Criámos filhos fortes e filhas independentes, tratamos dos nossos pais com amor, cuidamos de nós fisicamente, há muitas mulheres a fazer meditação, a ter cuidado com a alimentação, a ir ao ginásio para preservarem a saúde, e acho que aumentou a união entre as mulheres por causa do muito menor investimento emocional masculino nas relações.

Então estamos a perder onde?

Nas relações. Hoje desiste-se antes de tentar e acaba-se antes de começar, é tudo líquido, nada tem consistência. Acabamos todos na rebentação a levar com as ondas na cabeça, e as pessoas estão emocionalmente desorientadas. O paradigma que era ‘o homem caça a mulher’ acabou. Eles já não fazem a corte, porque as mulheres estão todas ali, no Tinder, no Facebook, a mandar flores a homens que não conhecem, e portanto o leão está deitado na savana com a cauda a abanar, vem uma zebra e diz ‘pick me’ e ele nada.

O que é que a zebra tem de fazer?

Tem de recuar. Nos anos 80, tudo era permitido aos homens e tudo era censurado às mulheres. Depois isso começou a mudar. Mas eu fui bastante criticada porque era muito à frente, escrevia expressões prosaicas e vernáculo nos livros, vivia sozinha desde os 24 anos. Hoje estou no camarote a ver o que eles fazem: e vejo que eles já não investem. Eles e elas estão no Tinder a ver bonecos. Passa-se tudo numa nuvem, num lugar etéreo e desabitado, e as pessoas estão muito desligadas. Por isso é que depois há aquele fascínio pela natureza, pela ecologia, pelas casas de madeira. Temos saudades do que é real.

Fotografia: Ricardo Santos
Alguma vez foi ao Tinder?

Eu não, mas tenho amigas viciadas. No Tinder só temos uma cara. E uma cara nunca é nada. Portanto, as pessoas têm de recomeçar a namorar. Porque isto não pode continuar neste caos. Há um desmembramento das relações sociais, e as pessoas, como estão mais carentes, toleram coisas intoleráveis. O que me parece intuitivamente é que, se a família ruir, tudo o resto vai atrás.

A família é importante para si?

A família é 80% da minha paz. E os homens da minha família não me educaram para o lixo do mundo. Eles vivem para a mulher e para os filhos, e eu durante anos achei que os homens eram assim. Não são. Vivem muito para o trabalho, e as mulheres estão ali para os intervalos. Há uma cosmética social, tentamos adaptar-nos ao toque e foge, mas todas queremos atenção e segurança. Andamos desde os anos 80 a dizer que não precisamos dos homens, e 20 anos depois eles dizem ‘Não precisamos de ti para nada.’

Isso não é um bocado salazarista?

(Risos) Mas isto não é a minha opinião, é o que está a acontecer! Há um paradigma que é ‘o homem caça e luta, a mulher intriga e sonha’, como dizia o Michelet. Na geração em que fomos educadas, eles fizeram um grande esforço para serem bons maridos e pais. Mas depois nós começámos a invadir o território deles. E eles até hoje não sabem o que fazer. Eu tinha um pastor alemão que corria pelo jardim, mas como ele me estragava a relva, eu limitei-lhe o espaço. Ficou uma semana à porta sem se mexer, em depressão. Perdeu-se a adrenalina nas relações, por isso é que também há muito menos sexo agora. Portanto, estamos num mundo muito diferente do ‘Sei Lá’. Nessa altura andávamos todos a brincar aos ricos sem o sermos, mas agora existe pior: pobreza de ideias. É o populismo, a carneirice, a falta de originalidade… No fundo, tivemos muita sorte em sermos raparigas do ‘Sei Lá’: porque sonhámos tudo e achámos que podíamos ter quase tudo.

Era o seu sonho, ter quase tudo?

Pode-se dizer que sim. O que eu queria era viver dos livros: queria que a minha paixão se tornasse a minha vida. E uma carreira de sucesso é quando tu consegues espelhar nela a tua identidade. Na nossa geração tínhamos sonhos e planos. Claro que depois a vida é sempre outra coisa, mas não nos imaginávamos sem um plano. Hoje em dia, acham que nada vale a pena. Nós não perdemos essas convicções, mas fomos atiradas à parede por esta realidade. O que temos de fazer? Não deixar que nos destrua. As mulheres são absolutamente admiráveis, porque vão conseguindo com muita graça e muita sabedoria aguentar o barco num momento tão difícil. O mundo continua a ser um lugar perigoso para as mulheres, porque estamos a invadir território que não era nosso. E ser porta-estandarte é muito ingrato.

Foi porta-estandarte?

Fui. Escrevi sempre os livros que me apeteceu. A literatura era fechada e de elites, e nessa altura popularizou-se. Continua a fazer sentido escrever sobre relações? Continua, porque o amor é a força mais poderosa do Universo. Só que hoje já não acredito no amor romântico, acredito na paz. O que une as pessoas não é o amor, são os filhos e as contas para pagar. Sempre foi. E o romantismo foi um movimento interessantíssimo na literatura mas estragou-nos a vida e criou aquele mito de que se morre de amor. Ninguém morre de amor. As pessoas morrem é atropeladas. (risos) Ou de stresse. Mas se for ao ‘Sei Lá’ encontro coisas que continuam verdade. Quando escrevi o ‘Português Suave’, cheguei à conclusão de que nada mudou: os homens continuam a pensar em gavetas e as mulheres em open-space, os homens continuam a separar a mãe perfeita da amante e as mulheres a quererem segurança, porque tudo isto é ancestral. As pessoas hoje têm muito medo de relações, mas se não tivermos isso, temos o quê? Temos de construir as memórias que queremos ter.

Construiu as memórias que queria ter?

Acho que sim. Queria muito viver da escrita, e vivo. Queria muito ser mãe, e fui.

Fotografia: Ricardo Santos
Como é ser mãe de um filho adulto?

O maior desafio da minha vida. Ele é millennial e há muita coisa nessa geração que eu não percebo. Não percebo aquela fluidez, aquele viver o momento, o não ter planos. Há cada vez mais miúdos que não estão formatados, e cada vez mais profissões novas.

Que queria ser em criança?

Primeiro queria ser bailarina, depois quis ser cantora, e aos 12 já queria ser escritora. Lia as ‘Seleções’ e queria ser cronista das ‘Seleções’. E mais tarde fui mesmo. Convidaram-me e eu disse ‘Desde os 10 anos que queria estar nas Seleções!’ (risos) Mas o meu primeiro emprego foi em publicidade, como copy. A publicidade ensinou-me a força de vontade: quero uma coisa e vou. Não tenho medo de nada. A única coisa de que tive medo foi de não ver o meu filho crescer. Ah, e também tenho medo de terramotos e tsunamis. De mais nada.

Quando sofreu um AVC, há uns anos, teve consciência de que ia morrer?

Tive. Mas tive e tenho muita sorte. E a minha vida mudou totalmente a partir daí: só se zanga comigo quem eu quero, por exemplo. Escolhi mesmo ser feliz. A minha maior qualidade é ir a zeros: não alimento ressentimentos. E fiquei mais assim. Mas tenho mesmo sorte na vida: tive sorte com a altura em que saiu o ‘Sei Lá’, tenho sorte porque ganho a minha vida a fazer o que gosto, e continuo a ter a mesma paixão e a mesma adrenalina.

Como nasceu o ‘Sei Lá’?

Foi um processo longo. Estava a tentar escrever um romance desde os 25 anos. Em 99 escrevi alguns capítulos e dei a ler ao Alçada Baptista, e ele disse ‘continua, que isto é um romance’. Ainda o escrevi à máquina. Eu era então diretora de comunicação da Fnac, tinha um filho pequeno, dava aulas, e só tinha os fins de semana para escrever. Mas era outro mundo. Em 2000, quando pedi ao meu editor um adiantamento para escrever o ‘Não há coincidências’, deram-me 5 mil euros imediatamente. No ‘Sei Lá’, em 99, eu sentia que aquilo era diferente e novo, mas não sabia a loucura que ia ser, e não tinha noção nenhuma da polémica toda que aí vinha. Nessa altura fui despedida da Fnac, e dois anos depois entrei na Fnac e tinha três livros meus no top…

Não há coincidências?

(Risos) Pois não. Pensei ‘nunca mais vou parar de escrever’. E desde aí foram 16 romances em 20 anos.

Entrou num território que não era o seu…

(Risos). Foi. Quando eu estou num supermercado a assinar livros e vem uma família classe C todos em fato de treino com o saco das compras e trazem um livro meu, eu sei que o livro chegou a toda a gente. Uma vez, no corredor dos detergentes de um hipermercado, uma senhora disse-me: ‘Margarida, o meu marido morreu de cancro, esteve meses internado no IPO com os seus livros à cabeceira, e quando eu me ia embora ele dizia: – Não te preocupes que a Margarida fica aqui comigo.’ O que eu chorei com isto. Mas a história mais emocionante foi a da Débora Fabiana. Estava em coma e a mãe começou a ler-lhe o ‘Português suave’ e ela acordou do coma. Eu meti-me num avião e fui vê-la à Madeira. Foi muito comovente e marcou-me muito.

 

Como é o seu dia a dia?

Durmo menos, por isso escrevo cada vez mais cedo, começo às 7, vou ao ginásio, à tarde socializo e faço tudo o que não é escrita. Leio menos, vejo séries, adoro o ‘Outlander’.

Ser escritor é uma profissão solitária?

Horrivelmente solitária. Por isso é que tenho rotinas para ver pessoas e sou viciada em SMS. Sou muito ‘assistente’ das minhas amigas, até me chamavam Dr. Love. E roubava-lhes imensas histórias. (risos) Mas a solidão não tem defesa. Quando vives sozinha tens de aprender a abraçar a solidão.

Custa-lhe?

Custa. Não está na minha natureza nem na natureza humana. As mulheres precisam de se dedicar para serem felizes. Precisamos de trabalhar para o bem da tribo. E custou-me que o meu filho deixasse de precisar de mim.

Hoje, para si, o que faz o sucesso de uma relação?

A intimidade. De cabeça. Dizeres o que sentes, quando o sentes. Seres entendida, apanhada. Estares ali inteira. E o timing: encontrar a pessoa certa na altura certa. Mas isso não controlas: não controlas com quem te cruzas, o teu ADN, o tempo que vais ficar na Terra, e nas relações amorosas há um fator sorte muito grande. Portanto, muitas vezes a culpa não é tua.

E já lhe aconteceu isso, encontrar a pessoa certa no momento errado?

Já. Conseguir encontrar o entendimento total numa só pessoa, é uma lotaria. Se for no timing certo, tiveste sorte. Claro que há pessoas que se contentam com pouco. Mas eu acho que as pessoas devem ser ambiciosas no amor. Muitas vezes as pessoas que são ambiciosas profissionalmente não são ambiciosas no amor, talvez porque acham que não merecem ou tenham medo de ficar sozinhas. Mas não tenho uma visão nada fatalista do amor. Acho é que as pessoas confundem muita coisa que não é amor com o verdadeiro amor, que é elevado e altruista. Não estamos habituados a cuidar um do outro tal como cuidamos dos filhos. E deixamos morrer uma relação, que é tal qual como uma pessoa morre: de ruptura ou de lassidão. Mas um casamento morto não é um casamento acabado – há casamentos mortos que nunca acabam.

Envelhecer custa-lhe?

Não. Não ganhei nenhum tipo de peso. Nem físico nem emocional.

Sente-se mais respeitada hoje?

Muito mais. Sobretudo pelos meus pares. Muito mais acarinhada. Os anos vão passando e o tempo valida-me, a minha obra valida-me, e hoje os escritores têm um sentido de proteção grande em relação uns aos outros.

Conte-me uma coisa sobre si que eu não saiba…

Adoro fazer arranjos de flores. Faço muitos. As flores têm tudo o que tem uma história de amor: beleza, sensualidade, magia, elevação. Só que em flor.

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