Se o Prémio Mulher Activa pudesse ser atribuído a cidadãs de todo o mundo, a paquistanesa Mukhtaran Bibi, 34 anos, também conhecida como Mukhtar Mai (‘grande irmã respeitada’ na sua língua, o urdu), seria uma séria candidata ao primeiro lugar. A razão? Transformou um sofrimento pessoal inimaginável em dádiva para com as mulheres e crianças do seu país e em exemplo para o mundo inteiro.






Sentença: violação colectiva


Quando, em 2002, o seu irmão de 12 anos foi acusado de alegadamente ter violado uma rapariga da sua aldeia, ninguém podia prever o horror que se seguiria: Mukhtaran foi falar com os membros do conselho tribal para resolver a questão, mas, em vez de um consenso pacífico, decidiram que o castigo para o ‘crime’ do adolescente seria a violação colectiva de Mukhtaran por seis homens da aldeia. É raro as violações constarem do rol de castigos tribais aplicados a mulheres e suas famílias, confirma a paquistanesa.






‘Ameaçaram-me de morte…’


Depois do sucedido, muitas pessoas demonstraram a sua solidariedade. ‘Tinham medo de falar, mas a maioria eram apoiantes que queriam ajudar.’ Foram estes amigos e vizinhos que a incentivaram a esquecer a ideia de tirar a própria vida. A maior parte das mulheres que passam pelo mesmo calvário decide suicidar-se, para fugir a um destino de desonra e lavar a honra da família, em vez de ir em frente com a queixa criminal contra os seus violadores. Mukhtaran registou queixa na polícia. O caso foi denunciado também na Imprensa nacional e internacional. ‘Os homens que me violaram ameaçaram-me de morte. Pensei que iria morrer, mas depois percebi que, se isso acontecesse, era melhor que fosse a lutar’, contou à ACTIVA. Chegou a ser acusada de promover uma má imagem do país ao contar a sua história aos jornalistas estrangeiros.


Depois de considerados culpados pelo tribunal, que condenou cinco homens a penas de prisão e um à pena de morte, os réus recorreram da sentença e estão agora em liberdade condicional. ‘Ainda estou à espera de uma sentença.’ Mukhtaran sabe que a sua voz inconformada representa uma ameaça para os velhos chefes tribais, que ainda detêm grande poder a nível local. Por isso, o governo assegura-lhe segurança pessoal a tempo inteiro, dentro e fora do país.






Em vez de se vingar decidiu educar


Com a indemnização que recebeu depois do julgamento, Mukhtaran poderia ter começado a vida de novo noutro lugar. Em vez disso, escolheu usar o dinheiro em prol da sua comunidade. Semanas após o julgamento, já estava a trabalhar no projecto de construção de duas escolas, uma para meninos e outra para meninas que, tradicionalmente, são impedidas de estudar (como, aliás, aconteceu com ela). ‘Tive a ideia de construir uma escola para que as crianças aprendam a respeitar o próximo e a não discriminar ninguém. É mais difícil para alguém que não estudou saber distinguir entre o bem e o mal’, observa Mukhtaran.


Começou com três alunos, em 2002. ‘Hoje temos cerca de mil crianças a frequentar três escolas duas para raparigas e uma para rapazes. Demorei dois anos a convencer os pais. Lá, aprendem inglês, urdu, ciências, matemática. Damos muita importância ao ensino dos direitos humanos.’


Começaram por pagar as despesas de estudo a uma criança por agregado familiar. Hoje, todos os alunos têm propinas, livros e uniformes pagos e um serviço de transporte gratuito. Na altura das colheitas, as crianças são dispensadas das aulas para ajudar as famílias nos campos.






‘Agora as mulheres já se fazem ouvir’


Com a instituição que criou, a Mukhtar Mai Women’s Welfare Organization (MMWWO), está a assistir-se a uma ‘pequena revolução’ na sua terra natal: ‘As mulheres são mais independentes e os homens aceitam melhor os direitos delas. Estão a ganhar coragem e a pedir direitos, liberdade e educação iguais.’ Uma das prioridades da sua instituição é dar-lhes ferramentas para ganharem alguma independência económica em relação a pais e maridos. Esta é a única maneira de escaparem a cenários de pobreza e violência. No centro que criou as senhoras aprendem a fabricar roupas que depois vendem.


À sede do MMWWO chegam, também, queixas de violência doméstica de mulheres de todo o país. No Paquistão rural, as mulheres são moeda de troca nas ligações da família com o resto da comunidade. ‘A situação é pior no interior, onde ainda vive 70% da população’, diz Mukhtaran. ‘As mulheres não têm o direito de escolher o próprio marido, devem aceitar aquele que os seus pais lhe impõem. Muitas são vítimas de maus-tratos. Dar a rapariga em casamento a outra família para resolver conflitos é uma prática comum para manter a paz. A mulher não tem direito a uma opinião; são elas quem sofre mais.’






Cuidados de saúde para todos


Mas não fica por aqui o trabalho de Mukhtaran. A MMWWO construiu um hospital para dar assistência médica à população mais carenciada e das zonas mais remotas, que normalmente não tem acesso a cuidados médicos. Além disso, estão a ser criados abrigos para mulheres vítimas de violência, onde estas podem obter ajuda legal.


Em Novembro do ano passado, com ajuda da francesa Marie-Thérèse Cuny, Mukhtaran decidiu publicar a sua história no livro ‘Desonrada’, editado já em Portugal pela Livros do Brasil.






Portugal também a premiou


A cobertura que os meios de comunicação fizeram do caso de Mukhtaran Bibi valeu–lhe o reconhecimento internacional pela sua luta como activista dos direitos humanos. A revista norte–americana ‘Glamour’ considerou-a ‘Mulher do Ano’ em 2005. No mesmo ano, o governo paquistanês atribui-lhe a Medalha de Ouro pela sua coragem e, em 2006, Hillary Clinton entregou–lhe, nos Estados Unidos, o prestigiado Global Leadership Award. Em Março último, Muktharan veio a Portugal receber o Prémio Centro Norte–Sul do Conselho da Europa numa cerimónia que decorreu na Assembleia da República. ‘Fiquei muito feliz por receber estes prémios. Aprendi muito com as pessoas que conheci em todo o mundo.’

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