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A pressão do tempo foi o tema central da sua apresentação na Interior Lifestyle China. Como vê esta dimensão atualmente na China?

É um tópico que pode ser aplicado em muitos níveis. Não nos podemos esquecer que a China é uma das culturas mais antigas do mundo. Mas de há 10, 20 anos a esta parte têm ocorrido mudanças incríveis. Destruiu-se muito do que era ‘antigo’ para dar lugar ao ‘novo’. Mas, por outro lado, a construção do ‘novo’ é também um processo repleto de projetos interessantes. Não creio que exista na China, a nível geral, a consciência de se ter de preservar o antigo, mas na Europa talvez tenhamos também uma preocupação demasiada com a preservação. É emocionante assistir à velocidade dos acontecimentos na China. E a velocidade às vezes pode ser muito boa. Aliada à força de trabalho, com muitas pessoas a trabalhar depressa, são uma força impressionante.

Explicou também que uma peça sua pode demorar seis anos a ver a luz do dia. Acha que o mercado chinês está preparado para o seu ritmo?

Provavelmente eles devem pensar que eu venho da Lua! Mesmo na Europa há sempre a pressão do tempo. Eu sei, pela minha experiência, que o tempo, na medida certa (não quero dizer que tudo tenha de ser lento), é muito importante. É uma perceção que, neste momento, não existe na China. Eles estão a construir o futuro, mas não estão a pensar para além disso, não estão a pensar como vai ser daqui a 20 anos. E uma das razões pode ser porque todo este desenvolvimento foi conseguido em muito pouco tempo.

Acha que é por faltar distanciamento histórico que contribua a uma reflexão aos acontecimentos dos últimos 20 anos?

Eu sei muito pouco, e longe de mim querer ser o juiz. Imagino  que deva existir uma geração que sente que tem de cortar com o passado. Na Europa tivemos o mesmo fenómeno depois da 2ª Guerra Mundial. Pressinto que neste momento só se vai em frente, sem olhar em redor, e de certeza sem olhar para trás. Compreendo essa necessidade e não me cabe a mim julgar esta postura. Quando falo do meu trabalho refiro-me sempre à minha experiência e ao meu ponto de vista. Estou a viajar na China há uma semana e é fantástico perceber as inúmeras oportunidades que existem (também aqui) para os designers europeus. Mas quase todas essas oportunidades, em termos de trabalho, são loucas! São projetos maravilhosos, mas quando se aprofundam as questões, perguntam-nos se os podemos executar num mês (!). E respondemos que não. Que temos um estúdio pequeno, que há dificuldades. Eu tenho vindo a lutar um pouco com isto.

Procura uma forma de passar a sua mensagem.

Sim. Mas também me impele a questionar a minha forma de trabalhar. Talvez eu esteja errado. Talvez eu ainda pense à moda antiga (como ter um estúdio pequeno na Europa). Talvez devesse abrir um ateliê aqui na China, empregar 10, 20 pessoas, e fazer os projetos. Essa também poderia ser uma maneira. Eu sei que não o consigo fazer. Estou mais interessado em fazer projetos do que gerir 20 pessoas em Pequim ou Xangai. Sou um designer que trabalha nos projetos. E sinto que tenho de passar essa mensagem. Eu gosto mesmo da China e acho que se está a viver um tempo muito interessante. Mas para fazer parte deste momento acho que tenho de encontrar um nicho que se adeque a mim e que permita que eu me adeque a esse mercado. Simplesmente não me posso forçar a tentar ser o que esperam de mim. Por isso ainda não sei como as coisas vão evoluir. Acho que de momento, no que diz respeito a projetos reais, ainda não posso falar nada. Aliás, a maioria dos projetos que se estão a realizar na China não são projetos de design industrial. São projetos de arquitetura e de arquitetura de interiores. E têm todos a mesma característica: a loja tem de abrir dentro de um mês, o hotel tem de abrir daqui a um mês, e é preciso produzir ‘coisas’ para tal, e esse não é o meu mundo. Eu estou mais habituado a trabalhar com a indústria, a desenvolver produtos, que podem (ou não) ser escolhidos por um arquiteto para serem “a cadeira”, “a mesa” ou “o candeeiro”.  Não costumo trabalhar em design de interiores. Por outro lado, “made in China” já não é sinónimo de má qualidade.

É um preconceito que os países ocidentais (e a Europa) têm de desmistificar?

Absolutamente. A China produz a maior parte dos produtos mais sofisticados, não só relativamente a alta tecnologia mas também demonstram ter um aparelho industrial flexível, de alta qualidade. É claro que ainda existe o ‘mercado paralelo’, que também existe em Itália, Portugal ou Alemanha. A maior parte do que as empresas aqui (na China) produzem tem qualidade, mas ainda não têm a sua marca distintiva. Ainda. E não estou a falar de uma distinção em termos de ‘ser adaptável’ ao nosso mercado, ou seja, “qual seria a marca chinesa que eu posso comprar na Alemanha”: isso não é relevante. Eles têm o seu próprio mercado, aqui. Porque é que estariam interessados na Europa ou na América? Seria fantástico que eles fizessem produtos para os chineses. Design chinês para os chineses. Só com essa mentalidade é que se viabiliza um produto mais autêntico, sem tentar fazer algo que pareça ser italiano, ou americano, ou alemão. Fazer produtos para o seu público local. E aí sim, nós (os europeus) estaríamos interessados. Até porque a vida aqui não é assim tão diferente da nossa…

A determinada altura, mostrou-nos alguns clássicos do mobiliário. O que significam para si?

Acho que alguns são objetos poderosos, honestos, focados, onde é absolutamente identificável o período em que foram concebidos, o que lhes dá uma força muito contemporânea, ou seja, do seu tempo, seja dos anos 20 ou 50. A Bentwood Chair, por exemplo, é uma ideia muito antiga de cadeira. E sobretudo muito icónica.

Costuma pensar os seus projetos como um reflexo da iconografia atual?

Sim. É isso mesmo que eu quero fazer. Não quero fazer um objeto que nos faça olhar para trás; e olhar para a frente é sempre muito difícil, por isso, o que fazer? Sabemos sobre o presente, ou seja, pensamos neste ano e no próximo. Há que tentar ser absolutamente contemporâneo de uma forma expressionista, incorporando, por exemplo, um apontamento de moda num objeto. Um dos aspetos que sempre me atraiu é o ciclo de vida potencialmente longo do mobiliário. Vivemos durante muitos anos com esses objetos e é isso que faz com que sejam especiais. Daí que dois, três ou mesmo quatro anos a desenvolver uma peça parece-me pouco tempo, quando colocado nessa escala.

O design industrial deixa uma perceção de cadeia produtiva – da conceção ao embalamento e comercialização. Acha importante que a prática do design atual tenha em conta essa mecânica?

Sim.  Hoje em dia somos muito mais do que a pessoa que cria a forma. Há que perceber os mecanismos de tudo o que envolve o processo industrial, produção, logística, transporte, distribuição. A minha viagem à China, para falar com pessoas, sentir o ‘terreno’, faz parte da informação que temos de recolher para desenhar um produto.

No início da sua apresentação, falou sobre números. Horas, minutos…

Números doidos…

 … e mais tarde disse que esses números não são assim tão importantes. Está a promover uma abordagem qualitativa, por oposição de uma abordagem quantitativa? Acha que o mercado chinês pode estar recetivo a essa abordagem?

Essa é uma luta quotidiana. Diria que os meus bons clientes estão cientes dessa (minha) abordagem. O processo de design é um diálogo, um casamento, é algo que se faz em parceria. Sem um bom cliente não temos um bom produto. Este é um sistema que os italianos foram os primeiros a perceber, as vantagens de uma estreita relação entre o designer e a indústria. Uma verdadeira parceria, ao invés de um mero serviço de desenho. É um caminho que tem de ser feito a dois. E acho que na China esse ainda é um problema de mentalidades. Os italianos são, normalmente, mais recetivos a um trabalho de parceria do que qualquer outro país europeu. Nem os alemães se lhes comparam, nesta questão. Por exemplo, os japoneses têm problemas em lidar com o erro. É uma questão cultural. E o processo de design é feito de altos e baixos…

O que deseja transmitir com o seu design?

Uma atitude. Que tem muito a ver com a aceitação da vida contemporânea tal como ela é, num sentido positivo, dentro da sua beleza.

É um otimista…

Diria que sou realista. Quero mudar as coisas, mas não quero mudar tudo. Prefiro compreender a realidade e, depois de perceber a mecânica, tentar fazer uns ajustes. Acho que o meu design fala dessa atitude: uma procura pela honestidade e transparência, um objeto que é o que é e que não está a tentar ser outra coisa qualquer. Não estou a esconder nada. E estes são aspetos importantes para mim.

Trabalha com pequenas empresas familiares e com grandes multinacionais. Quais as diferenças na abordagem aos projetos?

A resposta a essa pergunta tem de ser entendida de uma forma generalizada. Há, claro, diferenças. Para mim é mais fácil trabalhar com empresas mais pequenas porque é mais direto, mais eficiente e até mais rápido. As empresas grandes implicam normalmente uma estrutura mais pesada o que nos leva a falar com dez pessoas em vez de falarmos só com uma. Há uma relação muito pessoal quando se trabalha com uma empresa pequena. Nas estruturas maiores, se a química não for a correta, as complicações que a estrutura cria podem tomar conta do projeto. É um desafio trabalhar para grandes companhias. Eu prefiro trabalhar com pequenas empresas, como a Magis, por exemplo. As grandes companhias, como a indústria automóvel ou a Apple, fazem outra coisa: eles têm uma equipa de designers residente. E por haver integração, provavelmente funciona.

Na sua apresentação referiu um certo fascínio pelo ‘craft’. Ainda ‘suja’ as mãos?

Antes de ser designer estudei para ser artesão, e acho que essa é a fundação do meu trabalho como designer. Hoje, já não faço uma cadeira ou uma mesa, simplesmente porque não tenho  tempo. Mas no ateliê fazemos sempre modelos e sou eu que os faço. O ato físico de fazermos algo com as mãos é insubstituível. O computador é uma ferramenta útil… mas não deixa de ser uma imagem num ecrã. Uma cadeira quando é dobrada no computador não faz ruído. Não há cheiros nem se sente a temperatura. As pessoas mais jovens que trabalham no meu estúdio têm pouca experiência em manusear os materiais. Eles não conhecem a verdadeira diferença entre a madeira e um pedaço de metal, a diferença do toque, peso e temperatura. E para mim, esse sentimento que o craft nos dá será sempre a base do design e os computadores não vão mudar isso, porque quando usamos as objetos também lhes tocamos.

Arte e Design são duas disciplinas distintas mas muitas vezes se aproximam. Acha que pode haver uma abordagem artística ao design?

Acho interessante, aceito, mas não faço parte desse tipo de ‘gallery design’. É um género de design, tem o seu espaço e desenvolve-se de forma diferente do produto industrial. Acho que está tudo bem, que não há contradição entre algo que é funcional mas também exclusivo, desde que a motivação seja fazer design e não ‘fazer dinheiro’. Infelizmente acho que maior parte desse ‘gallery design’ está mais interessado em fazer dinheiro do que em fazer uma proposta de design.

Considera-se um designer influenciado por algumas escolas (Bauhaus, Craft). Como vê os novos designers?

Claro que a Bauhaus tem um papel importante na minha educação. Depois fui para Inglaterra, conheci o Jasper Morrison e ficámos amigos. Os meus heróis são os italianos do Pós-Guerra. Mas acho que estamos num momento onde estão coisas a acontecer. Os jovens designers de hoje são completamente diferentes. Não estão interessados na indústria e acham que os clássicos são chatos e fora de moda. Por outro lado, pensam que já que as marcas mais consagradas não vão falar com eles, para quê perder tempo? Hoje em dia, pode-se fazer um site, criar uma página no Facebook ou criar o nosso blog. Em suma criar plataformas que tornem o nosso trabalho visível. E com recurso às novas tecnologias tornam-se produtores.

Acha que essa atitude pode mudar o mercado?

Sim. Acho que esta nova atitude vai desafiar a indústria. Vão surgir produtos novos, independentes, a uma escala mais pequena. É isso que queremos, produtos interessantes, diferentes, que ainda não tenhamos visto. Estou interessado nesses novos designers. Não quer dizer que tudo o que se tenha feito não seja interessante. Tem mais a ver com o fazer as coisas à nossa maneira e tomarmos o nosso destino nas mãos.

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