Como prevenir e tratar a depressão pós-parto

Às vezes, faltam-nos as palavras. Encontramos um amigo e as notícias não são boas. Queremos dizer qualquer coisa que o anime, mas temos medo de meter o pé na poça. Afinal, que podemos dizer quando de facto não há nada a dizer?

Dar ânimo a alguém que está em baixo não é fácil, mas a pior coisa que podemos fazer é ignorá-lo, porque aquela pessoa precisa de um ombro amigo. Mas há quem não tenha nascido para ombro amigo.

Toda a gente já passou por um insensível: o bebé nasceu há uma semana e há quem olhe para nós e diga ‘Estás tão gorda!’ O pai morreu-nos e o que ocorre dizer aos outros? “Ah, também já era tão velhinho…”  Afinal, como desenvolver a arte da sensibilidade?

“O que é que se deve ter presente antes de dizer seja o que for: que aquela pessoa está a fazer o melhor que consegue, naquelas circunstâncias, e se não dá mais é porque não pode”, explica a psicóloga Elisa Miranda. “Às vezes, quem está de fora vê a solução e parece-nos que a outra pessoa é burra, fraca ou preguiçosa. Mas a outra naquele momento genuinamente não está a ser capaz de fazer melhor.”

Portanto, o importante é olhar para a outra pessoa sem juízos de valor. Além disso, ela não precisa que lhe digam o que ela já sabe. “Ela sabe o que está mal, não precisa que lhe aponte o dedo, precisa que lhe digam – Eu percebo que neste momento não estás bem, o que é que eu posso fazer para ajudar?”

Ora então vamos a casos concretos. O que responder quando alguém nos diz…

‘Perdi o emprego’

– Não dizer – “Também andavas a faltar muito”, “Estava-se mesmo a ver” ou “Avisei-te tantas vezes”. “Isso ele já sabe”, nota Elisa Miranda. “Ele não precisa de alguém que ainda lhe bata mais, precisa é de alguém que o ajude a arranjar uma solução.” Não dizer (nem pensar) ‘coitadinho’. Sem darmos por isso, vê-se nos nossos olhos quando estamos a pensar ‘Ainda bem que não fui eu!’

– O que dizer – Pensar numa solução prática. “Tiveste direito a subsídio, tens o teu curriculum atualizado?”, ajudá-lo a pensar numa estratégia, mostrar-lhe uma luz ao fundo do túnel. Isto não significa impor uma solução, mas sugerir, ou conseguir que seja a própria pessoa a encontrar a saída”.

– ‘Tenho cancro’

– O que não dizer – ‘Vais ver que não há de ser nada’. Primeiro porque é um lugar-comum e soa a falso, e depois porque, de fato, se não somos médicas e não conhecemos o caso dela, como é que sabemos que não vai ser nada? “Também não convém começar imediatamente a falar de 30 casos piores”, nota Elisa Miranda. “A intenção até pode ser boa: queremos desdramatizar e mostrar que há quem tenha sobrevivido. Mas o pior é que, mesmo quando são histórias de esperança, a pessoa está tão envolvida no seu drama que nem ouve. Temos de ser suficientemente intuitivas para perceber se a pessoa já está na fase de querer ouvir.”

O que dizer – Nada. Deixar falar. “Isto é extraordinariamente difícil, por três razões: porque é muito complicado lidar com o sofrimento dos outros, porque não estamos habituadas a ouvir e porque aquilo nos afeta pessoalmente. E aqui a pessoa, mais do que ouvir alguma coisa, precisa de falar, porque ao falar está a organizar-se, a tomar as rédeas do seu sofrimento. Achamos que falar sobre a morte é tabu, pode atrair pouca sorte, a nossa primeira reação é fugir. Aqui temos de ter força para estarmos caladas, para oferecer o nosso silêncio ativo e saber acolher aquela tristeza sem que ela nos destrua.”

– ‘Acabei de me divorciar’

– O que não dizer – “Hmmm… iupi?” (risos) “Ela pode ter-se libertado de um mau casamento, mas racionalmente ninguém pode festejar. Foi uma libertação, mas nem por isso deixou de ser a destruição de um sonho, de uma família e de uma aposta”. Também não dizer: ‘Tenho um amigo para te apresentar’, ou ‘Homens há muitos’ (neste momento, ela não quer saber disso).

– O que dizer – Tente mostrar que ela perdeu algumas coisas, mas que o facto de não ter ninguém também lhe traz muitas coisas boas. “Não deixe que ela se culpabilize: quem gosta de ti, gosta de ti com todos os teus defeitos. Mas se sente que aquela pessoa não é nenhuma vítima, não é por ser amiga dela que tem de dizer ‘ele foi um sacana e a culpa foi toda dele’!”

– ‘O meu pai morreu’

– O que não dizer – ‘Era tão velhinho’ ou ‘Também já estava na sua hora’. Isto é de uma insensibilidade atroz. Como se só gostássemos das pessoas porque são novas. “Quando amamos alguém, não há ‘hora’ para morrer”, afirma Elisa Miranda. É como quando morre o nosso amado cão e as pessoas dizem ‘Ah, também era só um cão…’  Também não convém fazer comentários ao aspeto físico da pessoa: ‘Ai estás com tão mau aspeto’ não vai ajudá-la a recuperar o ânimo. E já viu alguém de luto verdadeiro com bom aspeto? Também não ajuda dizer: ‘Tu ainda tiveste pai, eu nem conheci o meu’. Ou: ‘E tu ainda tiveste muita sorte, o meu pai perdeu um braço e depois as duas pernas e depois passou 56 meses no Hospital Militar antes de morrer num sofrimento atroz numa noite de tempestade.” Não entre num concurso de desgraças para provar que é mais desgraçadinha. Muitas pessoas, quando falam do morto, estão de facto a falar delas.

– O que dizer – “Se conhecemos a pessoa que morreu, ajuda mostrar que também sentimos a sua falta, que ela também está dentro de nós. Pode contar alguma recordação que ele lhe tenha deixado. Mas cuidado para não desatar a falar sem parar, porque as pessoas em luto têm um tempo de antena muito reduzido.”, defende Elisa Miranda. Também ajuda dizer simplesmente ‘Estou aqui, para o que for preciso’. E muitas vezes, o que é preciso são coisas práticas tipo alguém que lá vá a casa levar uma panela de canja ou fazer uma máquina de roupa. “Não exija muito da pessoa nesse momento, porque ela está no limite da sobrevivência. Se puder, fique ao lado dela para a apoiar e não fale muito.”

– ‘O meu marido faz-me a vida negra’

– O que não dizer – ‘Se eu aguentei, tu também podes aguentar’. “A violência doméstica é uma situação muito complicada, e para começar é difícil que a pessoa fale sobre isso, ela tem de chegar muito perto do seu limite para desabafar, e aí a coisa geralmente já está avançada”, explica Elisa. “Para começar, é das poucas situações em que desconfiamos. Se dissermos que nos roubaram a mala ninguém vai pensar que isso é mentira, mas se dissermos ‘o meu marido faz-me a vida negra’ (hmmm… tão bom rapaz, tão sossegado) pode haver quem não acredite.

Também não dizer ‘Tens de ver o lado dele’. Não há ‘lado dele’ que justifique isto, e depois nem sempre há dois lados, muitas vezes a culpa é só de uma pessoa sim.”

O que dizer – “Que somos ensinadas a não desistir de nada, mas que muitas vezes a esperança mata e temos de aceitar a nossa impotência, aceitar que não há nada a fazer. Mas é uma situação muito complicada. Muitas vezes a mulher tem medo do homem, medo puro, e não de ficar sozinha, como tantas vezes se diz. Muitas vezes, sente que estar próxima do inimigo a protege, e que se saísse isso ia enfurecê-lo ainda mais. Muitas vezes ela acha que ele precisa dela, quando ele se está a alimentar do ódio que sente por ela, que o impede de sentir ódio por ele próprio. Tudo isto é muito intrincado. E além disto, o papel de vítima é viciante, a pessoa cristaliza facilmente numa situação em que acha que não tem poder. O importante é fazê-la reorganizar a sua logística prática: casa, dinheiro, apoios. Mas atenção: tem de ser a pessoa a chegar a essa conclusão, nós não podemos impô-la, por razões óbvias. Este processo pode levar anos, e pode nunca acontecer…”

– ‘A minha filha adolescente está grávida’

O que não dizer – ‘Avisei-te tantas vezes que tivesses mão nela’. A pessoa já está em baixo, não é nada disto que ela quer ouvir, e francamente agora também já não interessa… ‘Eu se fosse a ela abortava’/’Não faz mal, tudo se cria’.

O que dizer – Fazer perguntas de ordem prática, mas sempre respeitando as crenças e valores da outra pessoa. Que vai a família fazer? O que decidiram? Como está a filha? Pode sugerir ajuda psicológica, porque aqui, mais do que a mãe, é a filha quem precisa de ajuda. Mas nunca ponha os seus padrões, opiniões e juízos de valor à frente de tudo. Não critique, não dramatize, e se a futura avó começar a dramatizar não entre na onda e não diga nada.

A TER EM CONTA

– Fuja das frases feitas e dos chavões. As pessoas têm a mania de dizer o óbvio como se as outras fossem burras. Usar um chavão só diz à pessoa que não estamos realmente a ouvi-la.

– Escutar é mais importante do que falar.

– Mostre à pessoa que a compreende mas sem a vitimizar.

– Não dê lições – A pessoa não quer saber o que você fez, não quer o seu exemplo, não quer que a deitem abaixo, não precisa de saber que você é a melhor do mundo. Se a pessoa não faz melhor é porque não consegue.

– Nós falamos sem ser com palavras… Dê um abraço, um sorriso, uma luz, fique perto.

AS RAINHAS DO DRAMA

“Se tem pela frente uma daquelas pessoas que gostam de drama, ela está a manipulá-la. Não deixe”, explica Elisa Miranda. “Neste caso, tem de fazer ver que o importante não é a situação, é a maneira como ela lida com a situação. Nunca vamos conseguir mudar o chefe, nem ninguém. Podemos é mudar o impacto que essas coisas têm em nós. Ou seja, a única coisa que controlamos somos nós próprios.” E se ela responde ‘isso é muito fácil de dizer, para quem está de fora’. “Também é verdade. Por duas razões. Porque de facto é difícil pormo-nos no lugar dos outros. E porque cada pessoa tem o seu limiar de dor, cada pessoa é afetada de maneira diferente por um dado acontecimento. Mas precisamente por isso é que temos de mudar a forma como reagimos às coisas.”

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