Qual é a sua formação?
Fiz o 12º ano em Artes Visuais, depois fiz um ano em Artes Plásticas mas não me agradou. Então decidi retroceder, fiz ensino profissional na área de Técnico de Produção Agrária, e no último ano especializei-me em produção animal.

E como enveredou pelo modo de produção biológico?
Quando fui para o curso de Produção Agrária já estava interessada no biológico mas não vi nada específico que me agradasse. Por outro lado não me sentia preparada para entrar num curso da área biológica desses sem ter bases nenhumas, embora tivesse alguns antecedentes familiares, por isso achei preferível retroceder e ir para o ensino profissional. Mas o biológico era uma opção óbvia para mim: como vivo num meio rural, apercebo-me do que se passa nas nossas quintas, nas nossas herdades, vejo a quantidade de produtos fitofármacos que são pulverizados quase diariamente só para fazer a manutenção e a criação do que nós consumimos. E eu não queria enveredar por aí. A minha ideia quando fui para aquele curso sempre foi perceber se havia mais jovens com a minha ideologia de vida e, se possível, conseguir mudar as ideias de algumas pessoas que só querem saber de agricultura tradicional intensiva. Porque eu sou nova mas já tenho bastante de noção de como há 15 anos havia muito mais insetos do que há hoje na minha zona. Deixou de haver pirilampos, joaninhas, libelinhas, até certos pássaros… E isso tem tudo a ver com a agricultura intensiva.

Falou dos antecedentes familiares e de uma horta caseira. A sua família já se dedicava à agricultura?
Sim, a minha mãe sempre teve uma horta, por hobby, embora neste momento esteja comigo no meu projeto, é minha sócia e ajuda-me imenso a concretizar as minhas ideias. E o meu avô tem uma pequena quinta de dois hectares na zona do Oeste onde já plantava muita coisa e, embora não tivesse a ideia de fazer biológico ou natural, já fugia a muitos químicos. Havia um vizinho que tinha uma vacaria e cultivava couves, e o meu avô estava sempre a criticá-lo por usar tantos químicos, demasiado azoto, que fazia as couves crescerem mas sem a consistência ou o sabor certos. Mas a minha mãe sempre ligou mais ao biológico, ao natural, que na altura tanto era moderno como tradicional. Porque se formos ver, o biológico incentiva as pessoas a fazer como os nossos tetravós faziam e nesse sentido é tradicional.

E como se tornou agricultora?
O meu avô entretanto adoeceu e abandonou o terreno. Antes de eu pegar nele já não era trabalhado há 9 anos, estava cheio de ervas, de silvas… Decidi reabilitá-lo porque me fazia pena.

Teve algumas ajudas de organismos estatais ou de fundos comunitários para esse seu projeto?
Neste momento ainda não sei. Delineei o projeto com a ajuda de uma engenheira que me ajudou a preencher os papéis e este ano apresentei o projeto para me candidatar a um apoio mas só vou ter resposta em Dezembro. Mas já estou a limpar o terreno há 2 anos e na verdade já comecei a avançar com algumas coisas do projeto mesmo sem saber se ele está aprovado ou não, porque vou avançar com ele em qualquer dos casos. Claro que se for aprovado será uma ótima ajuda, sobretudo para as coisas mais dispendiosas como uma estufa, que ajuda a ter produto o ano inteiro, inclusivamente no inverno, quando não há nada…

E é fácil para um jovem agricultor conseguir essas ajudas?
Portugal neste momento está a meio do quadro comunitário, no início era mais fácil, neste momento é um pouco mais complicado. Em relação ao meu projeto, por exemplo, eu tinha uma ideia mas também já tinha algumas bases, mais do que muitos jovens que se candidatam a estes financiamentos. Mas se não fosse a ajuda do Marco Jerónimo da Bee Organics a encaminhar-me para os sítios certos, a explicar-me como eu devia delinear o projeto, os documentos que tinha de apresentar… teria sido tudo muito mais difícil… Neste momento é mais fácil para um grande agricultor submeter um projeto e vê-lo aprovado, porque bem ou mal esse agricultor já tem vendas, do que um pequeno produtor que está agora a iniciar. Mas a verdade é que o Estado muitas vezes não verifica se os projetos são realmente viáveis, só veem as coisas no papel, não falam connosco, não veem se já temos experiência, se a nossa ideologia de vida é também viver disto… Porque os primeiros 2 ou 3 anos de um projeto podem ser complicados.

E o seu objetivo é viver da agricultura biológica?
Sim. No meu caso o facto de ter muitos terrenos abandonados à minha volta e não ter muita agricultura intensiva perto do meu terreno ajudou-me imenso porque não tenho nada a contaminar.

Mas neste momento, para além do seu projeto, para fazer a produção de uma planta específica, já está a produzir coisas que vende nos mercados: cebolas, couve toscana, flores, ovos…
Sim, e também decidi juntar flores com a produção vegetal, com o intuito de levar para a minha quinta a maior diversidade de culturas diferentes criando um ambiente ideal para atrair insetos benéficos. Decidi fazer um ano de experiências antes de dar um passo maior, para ver o que conseguia produzir. Porque imagine que a minha área era má, ou que eu não tinha jeito… Quando redigi o projeto, os números que apresentei já eram reais, com lógica, com base no produto que eu obtenho por metro quadrado. Mas estou a começar, neste momento o que produzo é numa escala muito pequena, não tiro ainda sequer o equivalente a um part-time.

Portanto é quase como uma pós-graduação com uma vertente prática…
Sim, pode-se dizer isso… As flores, por exemplo, foram uma experiência que correu bem mas podia ter corrido muito mal… aliás houve algumas espécies que eu plantei e que não vingaram. Do que correu bem este ano sei que para o ano posso aumentar a produção. Por exemplo as galinhas, ainda as tenho em muito pequena escala, é uma produção ainda muito pequena que eu quero melhorar. O meu projeto vai estar no seu expoente máximo daqui a 2 ou 3 anos.

A agricultura é uma atividade que leva o seu tempo, não é? Primeiro que se consiga viver dela leva alguns anos… Tem de se pensar a médio e longo prazo…
Sim, tem de se planear bem, pensar bem no que se vai fazer e ser poupado. Não se pode gastar dinheiro sem pensar várias vezes na forma de o aplicar e se esse investimento vai compensar no futuro.

As pessoas ainda têm um pouco a ideia de que a agricultura é ‘vou plantar aqui umas coisas e depois, quando nascerem e crescerem, vendo-as’…
Mas não é nada assim, há muitas variáveis que podem correr mal, sobretudo no modo de produção biológico. Por exemplo, há algum tempo semeei espinafres de folha larga: nasceram bem, estavam lindos… e foram todos comidos pelos melros, coisa que eu nunca pensei que fosse acontecer porque tinha ao lado espinafres selvagens, lindos, que cresceram sem percalços…

O que é mais difícil na sua atividade como agricultora bio?
Há duas coisas. Uma é não existirem horários, não temos uma hora certa para levantar nem para chegar a casa, saímos às 6 ou 7 da manhã e podemos regressar às 9 e ainda vamos trabalhar, enviar mails, estruturar planos de sementeira… isso pode ser complicado, porque há muito trabalho que não é contabilizado nem remunerado: se eu fosse ver quanto recebo à hora seria menos do que um trabalhador na China, 50 cêntimos à hora. E não há um separação entre a vida pessoal e o trabalho. E a outra coisa difícil é uma certa falta de reconhecimento, e desconhecimento, que os consumidores têm em relação ao nosso trabalho. Aquilo que disse que muitas pessoas acham que o nosso trabalho é só semear e apanhar, é verdade, muita gente acredita nisso. Até há quem ache que se atira a semente à terra e na semana seguinte já pode colher. Não têm noção de que há muito trabalho e muito planeamento. E também não percebem, muitas vezes, que a qualidade não pode ser barata, acham que quando estamos a pedir mais 50 cêntimos por quilo estamos a enganá-los e às vezes é complicado fazê-las compreender que o produto é mais caro mas é melhor. O biológico nacional está a lutar com o internacional, porque em muitos outros países já existe biológico há muitos anos e, por uma série de fatores, conseguem produzir produto mais barato, e os produtores portugueses têm de se confrontar com esses internacionais.

E o que é mais gratificante na sua profissão?
Muitas coisas! Pôr a mão dentro da terra e sentir a vida, pegar num terreno argiloso, cansado, e fazer dele um terreno vivo e produtivo, ver as culturas bonitas, ver a vida que consigo criar naquele pedaço de terreno. Nos mercados, as clientes virem ter comigo a dizer que os legumes eram bons, bonitos, saborosos. O facto de eu produzir e vender diretamente aos clientes, e ter a resposta deles que é sempre positiva… isso compensa o trabalho árduo desde a madrugada até às 9 da noite! Se não vendesse nos mercados de proximidade talvez não me tivesse lançado neste projeto, mas assim tenho um feedback constante e sincero. Quando vendemos a um revendedor, eles querem qualidade mas também querem sobretudo comprar a um preço baixo, enquanto os clientes diretos já começam a compreender que a qualidade tem um preço.

Como é o seu dia típico?
Levanto-me por volta das 7h30 e o meu primeiro trabalho é ir ver os animais: se têm comida, limpar e encher os recipientes da água, contá-los porque quando deixamos os animais andar ao ar livre pode ter desaparecido algum a meio da noite. Depois vou ver as culturas, verificar se não houve nenhum desastre com o vento ou a chuva, se não foram comidas por algum animal… No ano passado, por exemplo, as couves galegas que eu produzo para dar aos animais foram todas destruídas por javalis. Foi uma sorte não terem atacado outras culturas como a couve toscana ou a kale… Depois de tratar dos animais dedico-me às hortícolas e às flores. Ao domingo à tarde faço o plano de produção para a semana seguinte: o que é preciso semear, plantar e colher, o plano de regas. E depois quando anoitece ainda vou para o computador fazer o que é preciso da parte administrativa, enviar mails… À quinta e sexta-feira estou no campo logo às 7 da manhã para colher e preparar o que vou levar para o mercado no sábado, apanho, faço os molhos, recolho os ovos, para ir tudo o mais fresco possível. Dá muito trabalho porque se tivermos de levar 60 molhos de espinafres são 60 molhos que têm de ser apanhados e feitos. E isto multiplicado por cada um dos produtos. No dia do mercado levanto-me às 4 da manhã para partir para Lisboa antes das 5. Assim que chegamos ao local do mercado, no jardim do Campo Pequeno, temos de montar tudo o mais rapidamente possível porque as pessoas começam a chegar muito cedo, às vezes antes da 8.

E o que fazem com o que sobra dos mercados?
Dividimos entre todos, ou se estiver muito murcho, porque já esteve todo o dia no mercado e as pessoas mexem nos produtos, vai para os animais ou para a compostagem. Na agricultura biológica não deitamos nada fora, tudo é aproveitado, nada se perde tudo se transforma. E às vezes quando sobra mesmo muito produto, damos aos nossos vizinhos e familiares. E com isso estamos a gerar uma comunidade local porque um dia damos feijão verde a um vizinho e daí a uns dias se for caso disso ele oferece-se para nos dar uma ajuda, ou vice versa.

Que conselho daria a uma pessoa que quisesse seguir os seus passos e dedicar-se à agricultura biológica?
Para começar tem de estar aberta a aprender tudo e a adaptar-se às circunstâncias e aos desafios que surgirem. Como lhe disse comecei por me especializar em produção animal porque achava que era a área que queria seguir e neste momento estou a fazer sobretudo produção vegetal. Por exemplo, uma pessoa quer dedicar-se à produção de leite biológico mas pelo sim pelo não, porque não aprender também apicultura? Também é importante não desistir à primeira contrariedade e estudar o ambiente à sua volta, ver o que funciona e como as coisas são feitas. Há zonas em que é mais difícil iniciar um projeto em regime de produção biológica, no interior por exemplo é mais difícil do que no Oeste porque é mais difícil fazer os mercados e arranjar clientes. Mas as pessoas que querem seguir esta vida têm de estar dispostas a aprender tudo para saber o que podem utilizar de forma mais eficaz. Eu aprendi muita coisa no meu curso inicial de produção animal convencional, há coisas na agricultura convencional que podem ser transportadas, com as devidas transformações, para a agricultura biológica. Outra coisa importante: uma pessoa que vai ser produtora de biológico também tem de ser consumidora de biológico. Não se pode ir só porque se acha que está na moda e que se vai ganhar muito dinheiro. Tem de ser todo um estilo de vida, a pessoa tem de acreditar no que faz e acreditar que, aos poucos, está a melhorar o mundo.

Mais do que um projeto financeiro é um projeto de vida…
Sim. Tenho muitos amigos que não ligavam ao biológico, achavam que eram uns tontos a semear umas coisas e agora começam a ver que é algo que tem futuro. Aliás no meu projeto contemplei, num espaço de dois anos a dois e meio, poder receber visitantes e turmas escolares para demonstrar como uma quinta biológica funciona e qual a importância da biodiversidade no meio ambiente. Há quem diga que o biológico não pode alimentar o mundo mas acredito que, lentamente, as pessoas começarão a ver que isso não é verdade. Têm é de ser feito de forma controlada e organizada.

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