
Falámos com Rodrigo Silva, mais conhecido pelo nome artístico SEYKO, que fez das latas de spray e do carvão/ grafite os seus melhores amigos. A arte que assina caracteriza-se pelo realismo e diz ter sido bastante influenciado pela cultura hip hop. O mais curioso é que foi, precisamente, após desistir do curso universitário de Som e Imagem, que a sua carreira começou verdadeiramente.
Em 2017, o artista participou na UIVO, uma exposição coletiva no Fórum da Maia. No ano seguinte, foi convidado para exposição de Street Art realizada no Dog Summit, no LX Factory, e, em 2019, aceitou o convite da Sonae para expor durante três meses o seu trabalho no centro comercial Norteshopping, e fazer sessões de live painting. Recentemente, esteve em Lisboa, a convite do Palácio Chiado, com uma exposição cujo objetivo era homenagear a rica história do icónico edifício. E a Activa quis conhecê-lo um pouco melhor.
O que é que desistir da faculdade te permitiu alcançar?
Ao sair da faculdade, assumi o espírito “auto didacta” e senti quase como que “ok…agora és tu sozinho em tudo”. Ao contrário do que muitos pensaram na altura, não abandonei a faculdade por desleixe da minha parte ou falta de interesse. Aliás, foi bem pelo contrário! Sentia que necessitava de algo mais na minha vida e, naquela altura, ir para as aulas era como perder tempo para o que realmente queria atingir. Não abandonei a faculdade para andar por aí a passear, mas sim para me dedicar completamente à minha paixão: arte! E, desta vez, sem perder tempo.
Penso que desistir da faculdade me deu uma capacidade enorme de aprender tudo sozinho. Hoje em dia, não tenho medo de assumir qualquer tarefa e o que não sei fazer aprendo! Para mim, tornou-se simples, e muito desta iniciativa vem dessa minha decisão, que digo que foi das mais importantes da minha vida!
Como é que surge a inspiração para as obras que desenvolves?
A inspiração está um pouco por toda a parte, mas eu funciono muito através do desafio, ou seja, cada obra que faço tem de estar num patamar conceptual e técnico mais elevado do que a anterior. Não quero dizer que seja sempre assim, por vezes tenho encomendas que me “obrigam” a descer um pouco a fasquia, mas quando isso acontece, a tarefa torna-se aborrecida. Penso que o que mais me inspira é mesmo o desafio e a constante superação de limites que imponho a mim próprio.
Porquê o realismo?
Porque sempre foi um desafio para mim e, no dia que tentei, apaixonei-me. Digam o que disserem, fazeres um trabalho realista é das coisas mais complicadas a nível técnico na arte! Se a esse patamar técnico elevado conseguires juntar um conceito forte, a perfeição começa a aparecer. É isso que tento em todas as obras idealizadas por mim (que não sejam encomendas).
Qual o melhor elogio que já fizeram ao teu trabalho?
Tenho bastantes elogios ao meu trabalho, principalmente em sessões de live painting, mas continuo a preferir os “Você está-me a mentir! Isso não é desenho, é impresso”. E quanto mais sérios e chateados comigo o dizem, melhor elogio se torna! O que pode ser irónico, mas, ao mesmo tempo, faz muito sentido.

E a maior ou mais construtiva crítica?
Já me criticaram a minha necessidade (nos primeiros trabalhos) de procurar a maior perfeição possível nas minhas representações artísticas. Com a experiência, a aprendizagem e o “saber ouvir”, fui descobrindo que não devo tentar ser uma máquina fotográfica ou impressora. Penso que estou numa fase de deixar o lápis, o pincel, a lata decidir o seu caminho, mesmo que isso não esteja representado na fotografia referência pela que me guio.
Qual a mensagem mais forte que já tentaste passar através da tua arte?
Air on Credit é das minhas obras mais fortes a nível conceptual. É uma crítica à sociedade moderna e ao sufoco financeiro que muita gente vive, imposto pelo consumismo e facilidade de créditos que “nos dão” para podermos dar resposta a esse mesmo consumismo. É a minha obra com mais reconhecimento internacional, pois, infelizmente, é um mal que afeta todo mundo.

Há alguma obra que tenha um lugar especial to teu coração? Porquê?
Todas as obras têm um lugar especial no meu coração, a ponto de me custar “livrar-me” delas quando alguém as quer comprar. Todavia, adoro desenhar retratos de cães. Lembro-me de alguns episódios em que tardei a entrega da obra terminada para o cliente, só porque era demasiado recente para eu ficar “já sem ela”. Não sei se me estou a fazer compreender, mas a arte que faço sai-me diretamente do coração. Como podemos abandonar assim um sentimento tão puro e tão rapidamente? Por vezes, é-me mesmo complicado!

O que é que ainda te falta fazer?
Exposições pelo mundo fora. Mas acredito que tudo vem a seu tempo! E eu estou-me a preparar para, quando o momento chegar, ser memorável.
Acreditas na sorte, no trabalho, ou na junção de ambos? Porquê?
A início acreditava mais (e quase apenas) no trabalho. Mas hoje que sei que sou hiper dedicado, já percebi que a sorte é importante! Talvez sorte não seja o nome mais correto, mas sim o teu alinhamento interior com a realidade que queres e acreditas que pode, e tem, de ser tua! Não basta trabalhares a ponto de teres pena de ti próprio, porque “só trabalhas e nada acontece”. Acredito que tens de fazer o teu papel, criar conteúdo, deixares isso livre e tentar manter um pensamento positivo e de fé que tudo correrá bem.
Qual dirias que é a melhor forma de encontrarmos a nossa grande paixão a nível profissional?
Quando me perguntam como consegui, costumo responder que fui um privilegiado! A vida reuniu um conjunto de fatores que me favoreceu a ponto de me ser possível sonhar com isto! Por outro lado, também tenho a noção que fiz e faço de tudo para estar a altura desse privilégio. Mas penso que a melhor forma de encontrares a tua paixão é “ouvires” o teu interior e aquilo que te desperta mais a atenção ou te deixa com aquele brilho no olhar sempre que pensas ou falas disso…é isso que tens de fazer! Nem mais, nem menos. E se não te é possível, arranja forma de o fazer! Sem desculpas, dá voz à tua paixão, até ao ponto que essa atividade passe a ser tão natural que já nem páras para pensar nela. Passa a fazer parte de ti de uma forma tão intensa que deixa de haver distinção entre ti e ela. No meu caso, posso dizer com toda a certeza do mundo que eu sou Arte, e a consequência disso não é vaidade, mas sim responsabilidade.
Poderá ver o trabalho do artista exposto no Palácio Chiado, em Lisboa, até 15 de Setembro.