O design ao serviço das pessoas pode parecer um daqueles slogans feitos apenas para vender móveis. O que descobrimos com Britt Monti é que não é nada disso. É um projeto que a ocupou intensamente os últimos seis anos e que permite à Ikea apresentar agora uma nova coleção que tem na génese a experiência pessoal desta sua líder criativa.

A gama foi batizada com a palavra sueca OMTÄNKSAM, quase impronunciável para nós, mas com um sentido muito especial. “Significa atencioso, tomar cuidado”, explica-nos Britt, quando aceitou falar connosco sobre este inesperado conjunto de peças que querem tornar a nossa vida mais fácil, mas com especial atenção aos que têm limitações físicas temporárias ou permanentes. Afinal, nenhum de nós está a ficar mais jovem…

Falámos via Zoom com Britt, que nos explicou o que esteve na origem desta coleção, que tem no design inteligente e na filosofia inclusiva o seu ADN.

“Houve três aspetos que foram fundamentais para esta aventura. Antes de mais, no meu trabalho preciso de saber o que se passa no mundo e os movimentos sociais que afetam a vida das pessoas. Daí é fácil perceber que a organização tem um enorme impacto na forma como as pessoas vivem – mudam-se para as cidades para apartamentos pequenos ou partilham apartamentos com outros. Outro aspeto que é incontornável é o envelhecimento da população, o que significa que há pessoas com dificuldade em sentarem-se e em levantarem-se de uma cadeira. Temos tantas condicionantes que afetam o nosso dia-a-dia. Eu tive um AVC e isso mudou a minha vida do dia para a noite. Ganhei uma perspetiva completamente diferente sobre este tema.”

Tudo começou quando, após ter estado durante bastante tempo no hospital, Britt regressou a casa e nada era como dantes.  “Quando cheguei, necessitei de muito apoio porque não conseguia andar, abrir frascos, tomar um duche sozinha. Aqui, na Suécia temos um bom sistema de saúde, por isso tive um fisioterapeuta a ir a minha casa e direito a fazer, por exemplo, alterações na minha banheira para a tornar mais funcional. Mas quando começaram a chegar a minha casa e a mudar tudo, eu não consegui deixar. Disse que não queria voltar para o hospital e era isso que estava a sentir. Tinha de encontrar uma forma de lidar com isto de forma estética durante muito tempo (não sabia quanto) e quis encontrar peças bonitas, funcionais e de preço acessível para minha casa… o que não consegui.”

Um outro fator determinou a vontade de Britt em criar peças mais funcionais. “A minha mãe sofria de Parkinson e reumatismo e estava a ficar cada vez pior e era complicado encontrar peças de mobiliário para a sua casa. A minha mãe tem um sentido estético muito profundo, que eu herdei, não ia aceitar uma cadeira de braços feia, por isso ia optar por uma que custava três vezes mais do que no Ikea.

Um conjunto de circunstâncias, fruto da sua experiência pessoal, que conduziram Britt num caminho bem delineado: “A certa altura pensei que se ninguém estava a pensar nisto, nós, Ikea, tínhamos de pensar, porque não podemos excluir as pessoas com condicionantes médicas e físicas ou de idade, isso é antes algo que temos de abraçar. Temo-nos focado muito nas crianças e com sucesso e temos muito conhecimento de ergonomia e sobre as necessidades e comportamentos dos mais novos, mas não temos o mesmo conhecimento sobre os mais velhos.” Assim quando voltou para o trabalho sete meses depois, Britt ‘saltou’ para esta área. O projeto começou há cinco anos e o maior desafio foi decidir o que se ia fazer.  “Por exemplo, todos precisamos de uma calçadeira então porque não fazermos uma que todos possam usar? Quis fazer uma gama inclusiva, que as pessoas mais velhas ou com alguma condicionante pudessem usar. Essa foi a ideia base: começar a explorar o que podemos acrescentar ao que já existia para o tornar mais ergonómico, sem parecer ergonómico.”

A colaboração com especialistas em diversas áreas foi fundamental para o sucesso do projeto. Todas as peças foram desenvolvidas com ergonomistas e fisioterapeutas. Esta colaboração foi fantástica. Depois, procurámos design que tivessem experiência pessoal nestas áreas. Testámos os protótipos com grupos diferentes, de pessoas de idade ou com dificuldades de vária ordem, que nos puderam dar feedback e que nos mostraram muitas vezes que algo não estava a funcionar. Foi uma viagem fantástica para cocriar esta coleção.”

Nada foi deixado ao acaso. Não foram só as questões funcionais, mas as estéticas que foram pensadas por Britt com objetivos bem claros. O projeto foi desenvolvido com especialistas em cores, que sabiam por exemplo, quais as tonalidades que funcionam, por exemplo, com pessoas com problemas de visão. “Todas as cores têm um propósito, foram escolhidas com muito cuidado, mas também quisemos escolher cores intemporais. Para o estilo queria algo simples, escandinavo e clássico. Devia ficar bem em qualquer casa, mais moderna ou mais clássica.  São peças que não devem fazer muito ‘barulho’. É mais “isso fica bem” e só quando experimentamos é que dizemos: “uau, este cadeirão é fantástico”. Por fim, queria materiais sólidos, porque deviam ser peças que durem.”

Quanto aos preços, Britt não quis fugir ao espírito de acessibilidade que norteia a marca sueca: “Já estava definido que os preços não podiam ser altos, mas foi muito importante não negligenciar na qualidade e na funcionalidade. Sinto que os preços são ainda um pouco elevados, mas é porque ainda temos poucos exemplares.”

Questionada sobre se esta seria uma coleção aberta a novas peças, Britt dá-nos um olhar mais ambicioso sobre o futuro da coleção: “O meu trabalho é partilhar o meu conhecimento com outros designers, para estas preocupações estejam presentes em todos os artigos do Ikea. Vemos isto como um ‘programa piloto’ que queremos estender à gama. Em dez anos, espero que todos os produtos sejam, de alguma forma, um produto OMTÄNKSAM”

Por fim, houve ainda tempo para conversar sobre a forma como a pandemia do coronavírus está a mudar a nossa relação com a casa e as novas necessidades que daí advêm.

Tudo isto vai a ter um longo impacto a longo termo na forma como as casas são feitas. Nesta altura, passamos 24 horas com a família, sem espaço para nós. Por isso, há mudanças que vão ter de ser feitas. Um dos maiores desafios é desenvolvermos a nossa atividade em casa e ter os miúdos a estudar e só haver um espaço de trabalho.” Uma questão importante para a Britt é a forma como podemos dividir o nosso espaço de trabalho. “As pessoas tomaram consciência que a casa não está preparada para esta situação. Por exemplo, para estarmos sentados oito horas a trabalhar na nossa mesa de jantar, na cadeira da mesa, que não foi concebida para isso.”

A questão que se coloca face a esta ‘revolução’ é saber como podemos transformar, de uma forma fácil, a nossa casa de modo a estar preparada para receber diferentes atividades, para trabalharmos, jantarmos, sociabilizarmos e termos um espaço para estarmos sozinhos. “Flexibilidade, mobilidade, facilidade em montar e desmontar são características fundamentais”, reforça Britt, que acredita que toda a situação da pandemia veio criar mudanças que vieram para ficar.

E acreditamos seriamente que, quanto a isso, Britt não vai ficar parada. Aguardemos…

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