Em 2012, Mark Ruffalo entrou no primeiro filme de uma das franquias mais populares do cinema atual. No papel de Hulk, o ator norte-americano tornou-se num dos super-heróis da Marvel, participando depois em outras películas do Universo Cinematográfico da Marvel. Atualmente com 54 anos, volta a vestir a pele desta personagem, agora para uma série, “She Hulk: Advogada”. Com a produção a chegar à plataforma de streaming Disney + a 17 de agosto, mostra-se entusiasmado e curioso com a reação do público, tal como contou durante uma conversa na qual a Activa.pt participou.

 

Já faz o Hulk há alguns anos. É tempo suficiente para personagem e ator partilharem muitas semelhanças?

Sim, é normal usarmos partes de nós neste trabalho, ou descobrirmos novos lados do que somos enquanto estamos a trabalhar a personagem. É muito tempo a trabalhar nisto, o que torna impossível que não nos afete. É também difícil não deixar uma marca pessoal.  

Desde o início que há uma conversa com a Marvel sobre os objetivos destas personagens e respetiva evolução. Isso permite que o trabalho seja feito em colaboração. 

Acho interessante que em cada um de nós exista sempre um conflito interno entre partes que nos compõe mas são díspares. É isso que me atrai no Hulk, mesmo quando era criança. Ele consegue passar rapidamente de um estado de fúria para um de arrependimento. Em criança identificava-me com isso, pois aconteceu aborrecer-me com algo e partir um brinquedo de que gostava (risos). Com a idade ficamos um pouco mais sábios, temos maior noção das consequências dos atos que cometemos quando perdemos o controlo. Acredito que é uma reflexão importante para o mundo atual, em como o ódio nos leva a situações tão prejudiciais. A dualidade entre Hulk e Bruce Banner mostra-nos isso, em como existem dualidades dentro de nós. 

 

Que vamos poder ver de novo sobre o Hulk nesta série?

Até agora vimos sempre o Hulk e o Bruce Banner, agora professor Hulk, em situações tensas e de perigo. Agora vamos vê-lo a viver a vida dele. São retratadas situações quotidianas, mas adaptadas a ele. Como, quais as melhores roupas para o Hulk usar? Como ser um Hulk? Este é o ponto que é mais explorado. Isto é muito entusiasmante e interessante, pois nunca antes vimos como o Hulk passa o dia a dia, como vive, como passa por uma porta, como não destrói toda a mobília de casa, quão grande tem de ser a sua sanita, o que come às refeições (risos). São aspetos muito comuns, mas que apenas agora conseguem ser abordados. Nunca poderíamos mostrar isto num filme dos Vingadores, por exemplo. Não há tempo para tal e não é isso que o público iria querer ver. Mas numa série, especialmente numa como esta, que é de comédia e feita por mulheres, existe um aspeto muito mais relacional entre personagens e público. Conseguimos incorporar esta dinâmica e eu tive a oportunidade de explorar este novo lado da minha personagem. Mostrar quem ele é quando não está a combater.

 

Na série, o Hulk surge como um mentor da She Hulk. Também sentiu esse papel em relação à Tatiana Maslany, que interpreta a protagonista, enquanto estavam a gravar?

Adorava saber o que a Tatiana tem a dizer sobre este tema (risos). Acho que fazer uma personagem que requer tantos efeitos é algo novo para muitos atores, mas é algo que eu já faço há 10 anos. Estive lá quando muitas das técnicas que hoje são usadas começaram, e continuo a trabalhar dentro destes métodos desde então. É algo que conheço bem, que sei como se desenvolveu, sei representar com esta técnica. É algo que nos faz sentir dentro de uma bolha, e que por vezes tira a parte da interação humana. É que a tecnologia muitas vezes tira-nos da fila da frente da atuação e pode dificultar o processo de trazer humanidade à personagem ou situação que está a ser representada. 

Acredito que a Tatiana aprendeu ao observar-me a trabalhar dentro desta técnicas. Ela viu como eu dava a volta a algumas situações, como exigia certas coisas que me podiam ajudar no processo. Por isso, sim, acho que todos os anos que passei a fazer o Hulk foram benéficos para ela e a ajudaram a entrar mais facilmente no processo. 

 

Sente algum ressentimento por entrar numa série da She Hulk sem nunca ter tido a sua personagem como protagonista de um filme ou produção para a televisão?

Nada! Não sinto qualquer inveja. Já faço esta personagem há 10 anos e tive a oportunidade de a explorar de diferentes formas. Claro que foi sempre dentro de um tempo limitado dentro de cada filme, mas ainda assim estamos a falar de uma década. Nunca passei tanto tempo ligado a uma personagem. E a “She Hulk” é diferente, é uma comédia, por isso nunca senti que estavam a ocupar o meu território. E mesmo que não fosse assim, ficaria sempre grato por todo o percurso que tive oportunidade de fazer até agora.

Entrei nesta série a sentir-me bem, entusiasmado com o que de novo podia fazer com uma personagem que já tenho comigo há tanto tempo. Não senti que estava a perder qualquer espaço. E foi divertido! A Tatiana esteve incrível, estou mesmo feliz por ela. É um génio da comédia, muito dedicada e capaz, interpretou a sua personagem de forma maravilhosa. É ótima atriz e eu adoro-a. Criámos logo uma ótima ligação e diverti-me muito ao trabalhar com ela. Não sei como a série vai correr, mas espero mesmo que o público reaja de forma positiva. 

 

 

Nos últimos 12 meses tivemos seis filmes da Marvel, e cinco séries. Teme que os fãs possam estar a sentir-se sobrecarregados e em risco perder o interesse nas histórias de super-heróis?

Esse é um assunto sobre o qual não me preocupo muito. Sei que tudo tem o seu tempo, que há conteúdos que, numa altura, estão mais no centro das atenções e que depois podem ser ultrapassados por outra coisa nova. Mas há algo que a Marvel tem feito muito bem, que é trabalhar o que existe dentro do seu Universo. As bandas-desenhadas são o centro, mas deixam que cada realizador e ator faça o seu trabalho incutindo o seu próprio estilo. Cada artista que entra nestes projetos consegue mostrar a sua singularidade. 

Por isso, continuamos dentro do mesmo Universo Cinematográfico, mas a qualidade de cada filme ou série é diferente, tem características próprias, adquiridas graças às pessoas que estiveram envolvidas. Acho que é isso que tem permitido à Marvel ter a longevidade que tem, mantendo os fãs interessados no que vem a seguir. Há reinvenção. 

Por exemplo, se compararmos com a saga “A Guerra das Estrelas”, cada produção tem uma continuidade mais próxima da anterior. Pode haver um pouco mais de humor ou outra coisa que possa ser um pouco diferente, mas sentimos sempre que estamos dentro do mesmo tom. Já na Marvel não é assim, cada história, herói ou mundo pode transmitir algo completamente novo. E isso faz com que cada pessoa encontre uma história à qual se sente mais ligada. É quase como uma personalização de conteúdos. É estimulante, pois mostra que não sabemos onde isto vai parar, o que pode vir a seguir. 

 

Estamos a assistir a uma maior preocupação com a inclusão nas produções mais recentes da Marvel?

Sim! Agora temos super-heróis muçulmanos, nativo-americanos, representação da comunidade LGBTQIA+. É evidente que a Marvel e a Disney estão a responder aos pedidos do seu público e a honrá-lo na representatividade. O mundo é muito mais do que um bando de pessoas brancas. É muito mais interessante do que isso. Quando abrimos a visão à diversidade ficamos com uma realidade mais completa, dinâmica e rica.

Não abordar a diversidade que existe tem sido um dos erros do cinema do último século. É tempo de acabarmos com isso. De mostrarmos realmente de onde vimos e quem somos. Recentemente vi uma série que abordava a cultura ameríndia e fiquei fascinado. Nunca tinha visto tal representando com tanta verdade na televisão e de forma a apelar ao grande público. Temos que ir por aí, contar novas histórias, apresentar novas formas de verdade e realidades. Fico satisfeito de ser esse o caminho que a Marvel também está a seguir. 

 

O sucesso da Marvel ao longo destes anos pode estar ligado ao facto de as pessoas continuarem a sentir que precisam de super-heróis nas suas vidas?

A humanidade, desde o início, sempre teve algo no seu ADN que a atraía para os deuses e monstros. Heróis e vilões. É algo muito visceral para todos nós. Muitas fés e religiões cresceram à volta disto. O escritor Joseph Campbell abordou esta nova mitologia que estamos a criar. Acho que todos nós encontramos conforto na ideia de que existem forças heróicas no mundo. Que existe bem a ser feito contra todo o mal. 

Além disso, o que significa ser um herói? Heróis são pessoas complexas, que têm falhas e se debatem com muitas coisas, internas e externas. As pessoas têm a possibilidade de serem heróis, mas são poucas as que agarram esta possibilidade. Todos os dias nos é dada essa escolha. Mas ela não é aceite, em detrimento da segurança ou do conforto. É sempre bom ver quando alguém escapa disso e se torna herói. E as crianças querem acreditar num mundo em que o bem vence sempre o mal, onde o heroísmo é recompensado e os bons da fita ganham. Mas nem sempre é isso que acontece, como a História já nos mostrou diversas vezes.

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