Um salão de beleza sobre rodas. O conceito não é necessariamente novo, mas só existe uma Beauty Van que disponibiliza um serviço completo (manicure, pedicure, maquilhagem, depilação facial e eventos) no País e a materialização deste projeto é fruto do trabalho de Márcia Borges, de 29 anos, uma jovem empreendedora negra.

Neste preciso momento, deve estar a pensar: “Mas qual é a relevância da cor de pele da empresária?” Toda. Afinal de contas, só quem acredita em utopias pode partir do princípio que este é um fator que não tem peso no percurso de alguém que quer afirmar-se no mundo dos negócios, independentemente do ramo. Consciente disso, quando lhe perguntamos se se considera uma mulher inspiradora, Márcia não hesita em responder que sim.

“Uma mulher inspiradora estimula, influencia e ‘levanta’ outras mulheres. Além do mais, de uma forma ou de outra, eleva a sua comunidade”, afirma. “Recebo constantemente mensagens de pessoas que querem ser minhas mentoradas, ou que viram o meu caso e deixaram os seus trabalhos para começarem os próprios negócios. Isso não se ouve todos os dias”.

Estivemos à conversa com a mulher por trás da primeira Beauty Van de Portugal, cujo sorriso é tão grande quanto os seus sonhos e ambições.

Como surgiu a ideia da Beauty Van?

A Beauty Van começou há quase um ano, portanto, em 2019. A ideia foi da minha mãe e, inicialmente, eu não liguei muito porque pensava que ninguém fazia isto em Portugal (ou em lado nenhum ) e, para além disso, que não seria prático. Depois de pesquisar, vi que já existia noutros países e corria muito bem, e decidi experimentar.

Foi complicado pôr este projeto em andamento?

Foi muito complicado! Numa fase inicial, eu queria estar na rua, à semelhança das food tucks, contudo, nesses casos, é preciso pedir uma licença. Ora, o meu objetivo não era vender comida, portanto tornou-se difícil aplicar este tipo de negócio que ‘não existe’. Eu ia à Câmara Municipal e diziam-me para me dirigir à Junta de Freguesia. Chegando à Junta de Freguesia, encaminhavam-me para a Câmara. Andei neste “ping-pong” durante algum tempo, porque ninguém sabia o que fazer comigo.

E qual foi a solução que encontraste?

Pensei: “Bom, já que não me dão licenças, vou virar-me para os centros empresariais”. Estou na rua na mesma, mas em áreas privadas mais reservadas e de pouca passagem, e tenho de ter o cuidado de não estar perto de restaurantes, por exemplo.

O investimento foi todo teu?

Sim, não tive qualquer tipo de apoios. Trabalhei durante quatro anos em navios de cruzeiro, juntei dinheiro e investi na Beauty Van. Todos os detalhes foram pensados por mim. Posso dizer que tenho uma sensação de missão cumprida, porque começar um negócio inovador e pioneiro do zero, sozinha, não é nada fácil. Estes projetos costumam ter uma equipa por trás que dá dinheiro e ideias; eu não tive ninguém. Fiz os dois e posso dizer que estou muito orgulhosa de mim.

Existem 28 beauty vans no mundo. As criadoras de cada projeto, incluindo Márcia, têm um grupo no Whatsapp e estão constantemente em contacto.

O que te inspira?

Em primeiro lugar, não passar novamente por dificuldades – só eu sei aquilo por que já passei – e proporcionar uma vida melhor à minha mãe e aos meus irmãos. Esse é o meu derradeiro objetivo. Quando eu era pequena, o meu pai a dizia à minha mãe que tudo o que ela tinha era por causa dele, e decidi muito cedo que nunca nenhum homem iria dizer-me o mesmo. Assim que pude, aos 15 anos, comecei a trabalhar e a juntar dinheiro. Também quero mudar mentalidades e o estigma em relação àquilo que uma mulher negra pode ser (e fazer) na sociedade.

Em que medida é que o teu tom de pele já condicionou a perceção dos outros sobre ti?

Posso dar-te um exemplo muito simples. Eu faço muitos inquéritos sobre a Beauty Van no Instagram e houve uma vez em que perguntei: “Acham que a Márcia Borges é fundadora, co-fundadora ou empregada?” Noventa por cento respondeu que eu sou empregada, apesar de ser praticamente a única pessoa que aparece na página. Por que motivo será? É algo que esta enraizado e eu quero mudar esse estigma.

A isso junta-se o facto de seres mulher…

Mulher, negra e com menos de 30 anos. Isso raramente é associado a experiência. Já me perguntaram muitas vezes “quem é que tem dinheiro para isto?” Eu nunca pedi créditos ou dinheiro emprestado. Fiquei pobre [risos] mas não perdi nada que não fosse meu. 

Fazes questão de usar padrões africanos para expressares a tua identidade?

Sim, porque representa quem eu sou. Em tempos, uma pessoa muito influente disse-me que o rosto da Beauty Van devia ser uma mulher branca, e não eu, para vender mais. Fiquei em choque! No entanto, aquele momento deu-me ainda mais força para não parar.

A pandemia afetou muito o teu negócio?

Estive parada apenas no mês de abril. Em maio, atendi mais pessoas que pertencem aos grupos de risco para a COVID-19 e temiam comprometer a saúde ao deslocarem-se até aos cabeleireiros e centros de estética. Para dizer a verdade, não foi um grande choque para mim. Até foi bom, porque conheci mais pessoas e conheci melhor o meu negócio. O verão seria um teste, por causa dos casamentos e batizados, e não aconteceu. Mas não faz mal, porque aprendi outras coisas que poderei aplicar depois.
Quanto aos cuidados, a única coisa que mudou foi a obrigatoriedade de usar a máscara. De resto, já estava tudo muito em linda com as recomendações da Direção-Geral da Saúde, mesmo antes do surto pandémico.

Neste primeiro ano de Beauty Van, há alguma experiência que te tenha marcado particularmente?

Sim, tivemos uma cliente que veio de propósito do Porto para proporcionar às filhas um momento com a Beauty Van. Foi muito emocional. Até chorei. Elas estavam vendadas, porque foi uma surpresa por terem passado de ano, e choraram imenso. Isto, para mim, foi muito gratificante e tem valor, claro.

O que visualizas para o futuro deste projeto?

O plano é expandir, de preferência antes que alguém tenha a mesma ideia. Eu tenho muitos seguidores no Porto que me pedem para ir lá, mas é muito dispendioso e não compensa. A longo prazo, gostaria de ter umas três ou quatro Beauty Vans franchisadas e passar a geri-las, sem trabalhar fisicamente todos os dias nas carrinhas – até porque isso fará parte do processo de crescimento.

Que conselho darias a uma jovem que sonha ter o próprio negócio?

Se não tiveres investimentos, existem vários fundos para jovens. Dinheiro não é problema, salvo seja, mas o teu grupo de amigos pode ser. Costumo dizer que, se for necessário, é importante filtrar ou cortar. Isto porque se as pessoas não estiverem lá para te acompanhar e dar força, não vale a pena. Aconteceu-me muito e foi uma das coisas que aprendi.

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