Joceline Medida, mais conhecida no mundo da música como Josslyn, é uma verdadeira força da natureza não só pela voz potente, mas também pela garra e naturalidade com que fala das alegrias e, por vezes, dos dissabores de ser mulher.

Natural de Cabo Verde, mais especificamente da ilha de Santo Antão, carrega no ADN a enorme riqueza musical do arquipélago africano. Um talento que teve a oportunidade de mostrar ao público português em 2010, com a participação na quarta temporada do programa “Ídolos”, da SIC. Não ganhou o “talent show”, mas o formato funcionou como uma espécie de trampolim para a carreira artística. Desde então, a cantora tem vindo a construir uma identidade muito própria, através da mistura de diferentes sonoridades e géneros, incluindo a Kizomba, o R&B, o Afro House e o Afropop.

A maturidade que atingiu na última década, tanto a título pessoal como profissionalmente, serviu para Josslyn começar a usar a voz como um instrumento a favor do empoderamento feminino. Uma causa que lhe é bastante  próxima, especialmente depois de ter sido vítima de uma tentativa de humilhação pública. “Os homens não fazem ideia daquilo por que nós, mulheres, passamos na sociedade”, conta-nos. “Eu sou forte e sei que aquilo que aconteceu comigo, infelizmente, já aconteceu a milhões de outras pessoas. Quero mostrar que é possível manter a cabeça erguida”.

A propósito do lançamento do single “Já Deu”, disponível em todas as plataformas de streaming, falámos com a artista cabo-verdiana sobre como conseguiu encontrar-se numa indústria altamente competitiva e, acima de tudo, fazer frente às adversidades.

A música é um dos teus primeiros grandes amores?

Desde que me entendo por gente, sempre gostei de música. Lá em casa, em Cabo Verde, eu estava sempre colada ao rádio e tinha o sonho de ser cantora. Queria fazer exatamente o mesmo que aqueles artistas. Comecei a cantar na minha cidade, participei em concursos e depois vim para Portugal. Aos 18 anos, tive a oportunidade de participar no programa “Ídolos”.

O que é que essa experiência no “Ídolos” te proporcionou?

Quando entrei no “Ídolos”, ainda tinha muito para aprender. Foi um “abrir de olhos” e vi que tinha ainda mais potencial do que imaginava. O que se passava é que eu tinha um pouco de medo, em grande parte, por causa da minha inexperiência. Essa fase abriu portas para um capítulo de progresso diário, no qual tenho vindo a adquirir conhecimentos não só através da minha passagem por diferentes editoras, como também da troca de experiências com outros artistas e, claro, dos palcos que já pisei.

Quando a tua participação no programa terminou, como é que te encontraste enquanto artista?

O processo levou algum tempo, porque não sabia para onde me virar ou a que portas bater; se ficava em Portugal ou regressava a Cabo Verde. Acabei por ir e tive a oportunidade de trabalhar com vários artistas e percorrer todas as ilhas do arquipélago, a fazer vários espetáculos, inclusive como vocal de apoio, sempre em busca de experiência  para tentar chegar à sonoridade que tenho hoje. Considero-me um pouco nómada. Se não estou satisfeita ou a aprender com uma situação, tanto a nível pessoal como artisticamente, não tenho medo de ir à procura de mais.

Em Portugal, és muito conhecida na comunidade africana. Sentes que é mais difícil para um artista negro dar o salto para o mainstream?

Sim. É uma realidade que sempre existiu e, ultimamente, passou a haver uma maior abertura para essa conversa; para as pessoas exporem essa dificuldade. Na minha opinião, antes, as pessoas não falavam por medo de serem mal-interpretadas e até mesmo “canceladas”. Mas não podemos ignorar que existe racismo, desigualdade e preconceito no País, e no meio da música não podia ser diferente. Eu já senti isso na pele, mas segui em frente. Independentemente dos problemas, não me deixo abater.

De onde vem essa confiança?

Das adversidades que já enfrentei. Em Cabo Verde, temos uma expressão para isso: “bu ta bira cran”. Ou seja, ficas mais resiliente. Eu tenho consciência de que há muitas coisas que vão fugir ao meu controlo, mas venho de uma família de mulheres fortes e que não desistem, portanto tenho essa bagagem e tento inspirar-me nesses exemplos todos os dias. Eu vi a minha mãe ter esperança em dias melhores e ela é a primeira figura que me vem à cabeça quando penso em desistir. A minha avó, que é o amor da minha vida, vai fazer 91 anos e já passou por tanto… criou os filhos com muita luta e ainda está lá, como um exemplo de determinação e coragem.

Numa altura em que as figuras públicas cedem cada vez mais as suas plataformas para a discussão de temas fraturantes na sociedade, como é que vês a questão da cultura do cancelamento?

Infelizmente, eu senti isso na pele, por conta de algo que aconteceu comigo. Mas não senti tanto medo quanto imaginava. Não faz sentido que seres humanos imperfeitos “cancelem” outros seres humanos imperfeitos. Todos nós erramos e as pessoas têm de entender isso. Quando uma pessoa com uma certa exposição falha, alguns seguidores querem “cancelá-la”, a meu ver, porque se sentem traídos ou enganados. Mas isto com base na imagem que criaram a partir das redes sociais e, muitas vezes, aquilo que publicamos não é sequer metade do que somos na vida real. Acho que temos de ter mais empatia e compaixão, e ensinar esses princípios aos nossos jovens. Ninguém é melhor do que ninguém e ninguém é perfeito.

Quando dizes “algo que aconteceu comigo”, estás a falar da partilha não autorizada de um conteúdo íntimo teu?

Sim. Depois da morte da minha mãe, esse foi o pior episódio pelo qual passei. É algo que muda uma pessoa para sempre e tenho de lidar com isso todos os dias. Ninguém quer ser esse tipo de exposição e de atenção. De certa forma, senti-me cancelada, mas não por todos. Não posso ser ingrata, porque tive muito apoio – até mais do que esperava. Mas aquela parte negativa é a que mais dói. Acabamos por ver e ouvir coisas complicadas. Se eu não tivesse uma estrutura emocional forte, provavelmente, já teria feito uma loucura. Eu sou forte e é um trabalho diário. 

Sentes que recebeste mais feedback negativo do que um homem na mesma situação receberia?

Claro que sim! Se isto tivesse acontecido a um homem, o impacto seria completamente diferente e, acima de tudo, passageiro. Quando se trata do corpo de uma mulher, ainda existe muita vergonha e muito julgamento. Uma mulher que se sente confortável com a própria sexualidade, como é o meu caso, ainda incomoda. Estamos no nosso direito e temos essa liberdade. Eu não vou reprimir-me para agradar a outras pessoas.

E as mulheres também podem ser cruéis nestas situações…

Eu recebi muitos ataques de mulheres, inclusive, a dizerem que eu devia cobrir o meu corpo e que não devia expor-me, mesmo que fosse para um parceiro. Que mulheres de respeito e com classe não fazem esse tipo de coisas e, portanto, pus-me a jeito e a culpa era minha. As mulheres também podem ser machistas. Por vezes, a empatia, a sororidade e o feminismo são seletivos. 

Como é que se dá a volta a uma coisa destas?

Eu tentei transformar toda a repercussão negativa resultante desse episódio em algo positivo. Continuo a fazer aquilo a que sempre me propus: dar música às pessoas e fazer o meu trabalho. A música fala mais alto e o feedback tem sido muito positivo. É nisso que eu me foco.

Por falar em música, tens um single novo. O que podes dizer-nos sobre este projeto?

O single chama-se “Já Deu” e conta com a participação especial do Rui Orlando, um cantor angolano excecional e que admiro muito. O tema central toca nos altos e baixos do amor. Isto é, falamos sobre aquela fase em que uma relação cai na rotina e não sabemos se anda ou desanda. É uma música muito bonita, que retrata um casal a tentar perceber o que se passa no relacionamento. Acho que o público vai gostar.

“Já Deu” vai fazer parte de algum EP?

Vivemos tempos incertos e não sabemos o dia de amanhã. Eu continuo a trabalhar, que é o que eu sempre fiz, e não me vejo de outra forma. Neste momento, embora tenha material suficiente para um álbum, não tenho nenhum projeto em estúdio delineado. Vou continuar a lançar músicas e tudo depende do “feeling”. Devido à pandemia, vou apostar em lançar músicas, pouco a pouco, de acordo com a minha vontade e a dos fãs.

Neste single, cantas em português. A língua de Camões é a tua “segunda casa”?

Uma coisa é cantar na minha materna, o crioulo, e outra é cantar na minha língua oficial [em Cabo Verde], que é o português. Não é uma algo que eu faça conscientemente. Tanto escrevo e me expresso em crioulo como em português e em inglês. É uma coisa do momento e que flui naturalmente. 

O que é que queres que as pessoas saibam sobre ti e sobre a tua música?

Em primeiro lugar, que esta nova música foi feita com todo o amor e carinho. Para além disso, que sou muito grata aos meus fãs por todo o amor e carinho. Sem o apoio e feedback deles, a minha jornada não faria sentido. Eu continuo a ser nómada… à procura da minha identidade, da minha real essência e do meu “eu”, tanto pessoal como profissional. Quero inspirar as pessoas a não terem medo de quem são, a aprenderem com os erros e a terem empatia e respeito pelos outros. Ninguém é perfeito. Estamos todos no mundo com um propósito e é essa busca que faz de mim quem sou.

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