Lídia Pereira

Lídia Pereira nasceu e cresceu em Coimbra, onde se licenciou em Economia, mas foi em Bruges, Bélgica, que concluiu o mestrado em Estudos Económicos Europeus, no Colégio da Europa. Durante o percurso académico, participou também no programa Erasmus, ao completar um semestre em Praga, na República Checa, e esteve sempre envolvida no associativismo estudantil.

Tornou-se também membro ativo da Juventudo Social Democrata, na cidade que a viu crescer, e, em maio de 2016 – com apenas 24 anos -, foi nomeada coordenadora para as Relações Internacionais daquela organização. Atualmente, é Presidente da Juventude do Partido Popular Europeu (YEPP) e a primeira mulher a desempenhar o cargo.

Aos 27 anos, a 26 de maio de 2019, foi eleita para o Parlamento Europeu, integrando no mandato as Comissões para os Assuntos Económicos e Monetários e para o Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar. Também faz parte das Delegações para as relações com a República Popular da China e com os Estados Unidos da América. Conheça melhor o trabalho que tem desenvolvido – bem como a Lídia além da política.

O que faz ao certo uma eurodeputada? Como é um dia normal de trabalho?

Uma eurodeputada dedica-se à produção de legislação de âmbito europeu que acaba por ter repercussão no nosso dia a dia, em cada país da UE. Vejamos: em Portugal cerca de 80% da legislação nacional tem origem em diretivas ou regulamentos europeus. Concretamente estamos a falar, por exemplo, da proteção dos consumidores, da segurança e qualidade dos alimentos que compramos nos supermercados, de medidas de combate às alterações climáticas.

Um dia normal de trabalho é muito variado. Um deputado divide-se entre a participação em comissões parlamentares (no meu caso Economia, Ambiente, Assuntos Fiscais e Luta contra o Cancro), reuniões com organizações da sociedade civil para sermos capazes de produzir legislação de qualidade, estudar os dossiers temáticos. São dias sempre variados e bastante longos.

Sempre sonhou trabalhar na área política?

Não diria que é um sonho, mas confesso que sempre me interessei por política. Em casa, em ambiente familiar, sempre conversámos sobre os temas da atualidade e, no ensino básico, tive a felicidade de fazer parte de uma turma muito participativa. Éramos todos muito interessados e os professores também nos estimulavam e motivavam a desenvolver sentido crítico. Havia grandes discussões. No ensino secundário, com outra maturidade, comecei a desenvolver o meu pensamento em blogues, que eram as plataformas da moda, naquela altura.

Comecei a ter participação a um nível partidário enquanto estava a frequentar a Universidade, em Coimbra. Acredito que o meu interesse e depois a minha disponibilidade para participar ativamente, no associativismo e depois no partido, acabaram por traçar o início do caminho que me trouxe até onde estou hoje.

Como é que se “torna” eurodeputada?

Apesar do meu interesse por política desde muito nova, eu nunca pensei que aos 27 anos estaria a concorrer a umas eleições para o Parlamento Europeu. Sempre que me perguntam sobre o afastamento entre os jovens e a política eu costumo responder que os partidos precisam de evoluir na sua forma de comunicar, porque os tempos mudaram e os jovens acedem a informação através de múltiplas plataformas. Mas, para além da mensagem e da forma como se comunica essa mensagem, também é fundamental que existam novos protagonistas.

Quando o Dr. Rui Rio me convidou para integrar a lista candidata ao Parlamento Europeu senti um voto de confiança e, ao mesmo tempo, um sinal no sentido da renovação. Nas últimas eleições legislativas houve outros casos semelhantes. Há uma aposta forte em criar espaço para que novos protagonistas se assumam. No meu caso, o facto de presidir à maior organização política de juventude europeia, o YEPP, que é a juventude partidária do Partido Popular Europeu, terá sido um aspeto relevante. Já me encontrava envolvida nos assuntos europeus e nas dinâmicas político-partidárias europeias.

Sente que ter estudado fora foi uma mais-valia para conseguir trabalhar neste meio?

Eu considero que estudar fora é sempre enriquecedor. Aliás, os dados mostram que os estudantes que fazem semestres de mobilidade, ao abrigo do programa Erasmus, como eu própria tive oportunidade, têm maiores perspetivas de empregabilidade. Estudar ou trabalhar fora é algo desafiante. Ao sairmos daquilo a que normalmente chamamos “zona de conforto” acabamos por desenvolver soft skills, que hoje são muito valorizadas em qualquer contexto.

Ser eurodeputada, eleita na lista de um partido político, implica uma identificação com as ideias e propostas desse partido. Quando aderi ao PSD, na altura em que estava a estudar Economia na Universidade de Coimbra, sentia-me (e sinto) ideologicamente identificada com a social-democracia. Comecei a minha atividade partidária a nível local, em Coimbra.

Mais tarde, as minhas experiências no estrangeiro, primeiro como estudante, depois profissionalmente, pois comecei a minha vida profissional no Luxemburgo, antes de também trabalhar numa consultora em Bruxelas, terão contribuído para que esta oportunidade surgisse. Eu diria que resultou de uma conjugação de fatores, somando-se o percurso político ao profissional.

O facto de este ser ainda dominado por homens afeta-a de alguma forma? Sente mais “pressão”?

Durante o mês de março promovi, todos os sábados, no meu instagram, conversas com mulheres de diferentes setores da sociedade. Este fenómeno não é exclusivo do meio político. No entanto, eu considero que “dominado” já não será a palavra mais adequada. Ao longo dos últimos anos tem havido progressos assinaláveis. Nas últimas eleições europeias, a lista que o PSD apresentou ao Parlamento Europeu foi paritária. Fomos para além das quotas a que a lei obriga. Como resultado, fomos eleitos 3 mulheres e 3 homens.

No entanto, há sinais positivos também na Assembleia da República, em Portugal. Em 2019 foram eleitas 86 mulheres, o que corresponde a 38% da composição do parlamento. É uma percentagem que também supera o mínimo de um terço exigido pela lei. A maioria de nós, quando pensa num político, a imagem mental que surge é a de um homem.

Mas, numa conversa recente que tive com um colega, um eurodeputado alemão, ele dizia-me que os filhos não imaginam um chanceler homem. Angela Merkel é uma referência para as gerações mais jovens na Alemanha. Mas, a este respeito, permitam-me sinalizar que atualmente a Comissão Europeia é presidida por Ursula von der Leyen, o Banco Central Europeu por Christine Lagarde, o Fundo Monetário Internacional por Kristalina Georgieva e a Organização Mundial de Comércio elegeu recentemente Ngozi Okonjo-Iweala como sua líder. Este conjunto de exemplos é relevante, pois são algumas das mais importantes instituições e organizações globais.

Como é ser a primeira mulher a liderar a Juventude Popular Europeia?

É sempre um grande desafio liderar um projeto, uma organização. Permite-nos explorar a nossa visão e juntamente com uma equipa trabalharmos em prol de objetivos comuns. É sempre uma forma de testarmos os nossos limites, de fazermos experiências, muitas vezes no método tradicional tentativa e erro. Mas é também uma forma de nos conhecermos melhor a nós próprios.

Ser a primeira mulher foi uma novidade, mas a dedicação, empenho, amor à camisola foram e são o meu compromisso com a organização e é nesse espírito que presido ao YEPP. Ser a primeira mulher abre portas a que mais jovens raparigas aspirem a lugares de liderança, na política, nas empresas, nas universidades, em associações.

Ser a portuguesa mais jovem no parlamento traz vantagens? E desvantagens?

Ser jovem permite-nos um certo arrojo, alguma rebeldia. A juventude inevitavelmente faz-nos ver o mundo de uma perspetiva diferente e esse facto permite contribuirmos para discussões, trabalho parlamentar com ideias ou propostas concretas numa linha talvez mais “fresca”, dinâmica. É claro que não tenho a mesma experiência que os meus colegas têm, mas dá-me a oportunidade de aprender com eles e de juntos chegarmos a boas soluções.

Em relação às questões ambientais, quais os seus grandes objetivos e metas já alcançadas?

O principal objetivo no Parlamento passa por conseguir compatibilizar o que é a proteção do ambiente e a redução acentuada das emissões de carbono com o crescimento económico. Creio que estamos a conseguir construir esse caminho não só dentro do nosso grupo político, mas também com os outros grupos do Parlamento. Ao contrário do que muitas vezes se ouve algumas vozes mais radicais dizerem, as pessoas podem viver melhor e em total respeito pelos limites ambientais do nosso planeta.

Nesse sentido foi muito importante para mim no Parlamento Europeu termos conseguido aprovar a primeira Lei do Clima de todo o mundo, que traz a redução da meta de 55% nas emissões de dióxido de carbono até 2030 e a neutralidade da Europa em carbono em 2050. Foi um processo no qual me empenhei e no qual procurei que se combinasse a ambição, a proteção do planeta e o tempo necessário para as empresas e os empregos se adaptarem. Isto representa que a Europa em 2050 terá de ter muito menos emissões e conseguir retirar da atmosfera tanto carbono quanto o que emite.

Adicionalmente tenho procurado dar um ênfase muito grande a uma questão ambiental que é crítica para Portugal que se trata da desertificação. Vários estudos indicam que, se nada for feito, em menos de 30 anos Portugal terá metade do seu território desertificado como consequência do aumento de temperatura e da falta de água.

Vários outros países do Sul da Europa enfrentam o mesmo problema. Este problema, a necessidade de desenvolvermos soluções para nos adaptarmos e conseguirmos viver com algumas alterações climáticas que já se fazem sentir e não conseguiremos reverter tem sido uma questão na qual tenho investido muito tempo e para a qual tenho sido uma voz incansável não só dentro do Parlamento, mas fora, em muitas conferências e webinars em que participo. Será seguramente também uma questão para a qual chamarei atenção no relatório para a COP26, a Conferência do Clima das Nações Unidas, e para o qual tive a felicidade de ser chamada como responsável pelo grupo político ao qual pertence o PSD.

Como resumiria o master plan europeu para a luta contra o cancro apresentado este ano?

O plano foi apresentado a 3 de fevereiro, véspera do Dia Mundial da Luta contra o Cancro. Nesta fase, o Parlamento Europeu tem estado a analisar o documento e, também, a promover audições públicas com vários especialistas a nível europeu. É um plano muito ambicioso, mas absolutamente necessário. Em 2020, 1,3 milhões de europeus perderam a vida por causa desta doença. E, lamentavelmente, o número de casos está a aumentar.

Aliás, a pandemia provocou adiamentos ao nível dos rastreios, diagnósticos, terapias e até mesmo em algumas cirurgias oncológicas. Estudos recentes mostram que, em determinados tipos de cancro, um adiamento de 3 a 4 semanas no início do tratamento pode aumentar o risco de morte em 6% a 13%. Desenvolver este master plan já era uma prioridade antes da pandemia, fazia parte do programa político do Partido Popular Europeu, onde se insere o PSD. Mas, hoje, investir nesta área tornou-se ainda mais importante.

Resumiria o plano como sendo o maior investimento de sempre no combate ao cancro, mobilizando cerca de 4 mil milhões de euros, para intervir em diversas áreas, desde a prevenção à investigação de terapias inovadoras. Uma vez que a ciência nos diz que 40% dos casos de cancro desenvolvidos poderiam ser evitados, os nossos esforços e as nossas ações têm de resultar numa diminuição significativa deste número.

Como tem sido trabalhar durante a pandemia?

O teletrabalho tem sido um desafio para milhões de europeus e as instituições europeias não ficaram indiferentes a esta circunstância. Inicialmente, durante a primeira vaga, houve um período conturbado, de adaptação. O nosso trabalho implica o acesso a informação sensível e também foi necessário garantir a segurança do sistema de votação. Com o passar do tempo estes aspetos foram ultrapassados, mas há dimensões do nosso trabalho para as quais o acesso remoto ao Parlamento, ou o teletrabalho, não têm resposta. Debater através de uma plataforma de streaming é totalmente diferente de debater presencialmente. E, por exemplo, se estivermos a discutir propostas de alteração a um relatório ou a qualquer outro documento de trabalho, muitas vezes “as conversas de corredor”, ou as pausas para café permitiam desbloquear algumas questões. A política é uma atividade humana, onde as relações pessoais são muito importantes.

Qual o momento mais marcante da sua carreira?

Em setembro do ano passado fui eleita por unanimidade coordenadora do Grupo do Partido Popular Europeu para a comissão permanente que acompanha os Assuntos Fiscais. É um marco importante no meu percurso no Parlamento Europeu, porque significa que o trabalho que tenho vindo a desenvolver nesta área está a ser reconhecido.

Com a oportunidade vem a responsabilidade e o combate à corrupção, à evasão e elisão fiscais requer muito empenho e, também, um forte sentido de compromisso entre as várias forças políticas, instituições europeias e Estados-membros. Porém, esta função, que hoje desempenho, também se encontra relacionada com um momento que que me marcou e que vou guardar para sempre na minha memória. Em dezembro de 2019, poucos meses depois de ter tomado posse, consegui aprovar um pacote legislativo da minha autoria, dedicado a modernizar e agilizar os procedimentos de combate à fuga ao fisco no comércio eletrónico.

Neste e em outros domínios teremos de fazer uma forte aposta na digitalização. A fiscalidade pode tornar-se muito mais eficiente se o fizermos e todos temos a ganhar com isso porque cada euro desviado é menos um euro que pode ser investido em melhores políticas públicas. E menos receita fiscal significa piores serviços públicos.

Quem é a Lídia quando não está a trabalhar? O que a ocupa nos tempos livres?

Tenho-me apercebido que a maioria das pessoas não vê os políticos como pessoas normais e confesso que essa é uma visão que me incomoda. Nós temos família e amigos. Atualmente, por causa da pandemia não é possível, mas gosto de sair e almoçar ou jantar fora, ou ir ao ginásio. Gosto de andar de bicicleta, que é o meio de transporte que uso para ir de casa para o Parlamento, em Bruxelas, quando não percorro a distância a pé. E tenho vários hobbies claro. Gosto bastante de ler, também acompanho algumas séries e de vez em quando gosto de jogar playstation. Recentemente comecei um novo desafio, que ocupará uma boa parte do meu tempo livre, mas que será enriquecedor do ponto de vista pessoal. Estou a frequentar um programa de doutoramento, para já também com aulas a distância.

Que conselhos daria a alguém que gostaria de trabalhar na política?

É uma pergunta interessante. Não existe um curso superior ou um tipo de formação qualificada para dar acesso a uma carreira profissional no mundo da política. Mas, com alguma semelhança ao exercício de uma profissão, desempenhar funções ou cargos políticos também implica vocação. Eu costumo dizer que estar na política é servir.

Uma pessoa que se interesse por acompanhar a atualidade, por debater com sentido crítico aquilo que são as decisões e medidas tomadas pelos decisores políticos e pelos impactos na sociedade e na economia, provavelmente conseguirá encontrar o seu espaço de participação num partido político com o qual se identifique. Há pessoas que preferem participar de outra forma, em plataformas cívicas ou em organizações da sociedade civil. Acima de tudo, o mais importante é participar. E, hoje, existem imensas formas de o fazer. A internet e, sobretudo as redes sociais, ainda que nem sempre no melhor sentido, vieram permitir que qualquer pessoa consiga ter uma voz ativa no espaço público. Há vários exemplos de causas mobilizadoras começadas à frente de um ecrã de um computador ou de um smartphone.

No entanto, numa democracia representativa, eu acredito que os partidos políticos desempenham um papel fundamental e por isso acho que as pessoas não devem ter receio em se filiarem ou em simpatizarem e participarem ativamente em atividades partidárias. Entendo que é preciso reabilitar a imagem que a sociedade tem da atividade política e dos políticos e considero que isso se faz através de novas formas de comunicar e de mensagens mais claras. Mas não se faz sem novos protagonistas, vindos da sociedade civil, com novas ideias e com vontade em melhorar o funcionamento da sociedade em que vivemos

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