Tem 26 anos, é natural de Rio Maior e sentiu que podia fazer a diferença no mercado editorial português. Foi assim que Raquel C. Vicente teve a ideia de criar uma nova editora. Num país onde mais de metade da população não leu um único livro no ano passado, segundo dados do Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses 2020, encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian, esta jovem quer inverter a tendência. Criou a Velha Lenda.

Fundada em fevereiro de 2020, semanas antes de o mundo fechar devido à pandemia provocada pela covid-19, A Velha Lenda é a materialização de um sonho. Aposta na literatura portuguesa moderna, tem um catálogo com obras que abrangem diferentes géneros e, aos poucos, tem ganho espaço e destaque.

Conversármos com Raquel C. Vicente, de modo a conhecer melhor esta jovem mulher empreendedora que arriscou e está a ver um grande desejo concretizado. 

Abrir uma editora de livros em Portugal. Como surgiu esta ideia e vontade?
Veio de uma incontestável lacuna no mercado nacional e de um grande amor. Antes de me tornar editora, era uma escritora amadora que traçara como objectivo para a sua vida a carreira como autora profissional. Desejava com paixão ser lida e reconhecida. Contudo, quando entrei no mercado literário, não existiam oportunidades. Foram e-mails atrás de e-mails enviados na esperança de algum dia obter um “sim”. Nessa altura, ainda acreditava que as grandes casas editoriais que tanto admirava andavam numa constante busca pelo próximo best-seller. Livros com potencial, com qualidade. Digamos que eu tinha uma visão muito romântica do que era ser escritor, demasiado desadequada tendo em conta a realidade portuguesa.
Tinha dezoito anos quando decidi iniciar essa procura pela editora perfeita para o meu livro. Não conhecia a realidade da literatura em Portugal, portanto, corria atrás da ideia de que tudo iria acontecer como nos filmes norte-americanos: um dia, um editor ia descobrir o meu talento e apostar em mim. Quando nada aconteceu, tomei más decisões e quase destruí a obra que tanto amava. E descobri a verdade: em Portugal não existiam verdadeiras oportunidades, nem para escritores amadores de dezoito anos, nem para escritores experientes de oitenta.
Se por um lado as editoras ignoravam manuscritos (sim, esta é a realidade de muitos gigantes editoriais), concentravam os seus catálogos em sucessos de vendas estrangeiros e filtravam a aposta portuguesa através de fama e de amizades, logo ao seu lado estavam as gráficas que cobravam valores acima dos normais e se escondiam atrás de um logótipo, autoproclamando-se editoras, prontas para explorarem os desprevenidos. E para lá destes dois comportamentos, um abismo para o qual eram lançados os sonhos destroçados de quem amava de verdade a literatura. Não podia aceitar isto. De forma alguma. Tive a possibilidade de esquecer a literatura, de desistir do meu sonho e viver uma vida diferente, talvez mais fácil. Mas eu tenho dificuldades em aceitar a palavra impossível… Resolvi começar de zero e tentar abrir um novo caminho na literatura portuguesa. De início foi muito estranho. Não sabia se seria capaz de criar uma editora, nem como o poderia fazer. No entanto, fez sentido.
Podia ser muito difícil e até ingrato, mas estava disposta a tentar preencher o vazio existente no mercado literário. É o que tenho tentado fazer até agora e, com certeza, é o que farei durante longos anos enquanto mo permitirem. Gosto demasiado de livros para ficar de braços cruzados perante uma realidade que não satisfaz. Foi por isso que criei a Velha Lenda.

Como foi partir do desejo para a realidade?
Duro. Pela parte do investimento e do trabalho que me exigia. Dei o meu melhor para estudar e aprender os bons hábitos de produção literária. Toda a informação que encontrava era analisada com minúcia. Estudei desde design a revisão textual, desde gestão empresarial a marketing digital. Um pouco de tudo o que ia encontrando e que considerava uma mais valia para o projecto. E passei longas horas a folhear os livros de outras editoras para perceber os seus métodos e aprender algo valoroso para pôr em prática na minha.
Por outro lado, fui trabalhar durante quase um ano para um centro comercial até conseguir o capital necessário para fazer o registo da marca Velha Lenda e dar início a esta história que já tem dois anos.
Lembro-me que o nosso primeiro livro foi impresso através de um famoso website americano de serviços de publicação independente. O resultado? Foi horrível. A capa e o miolo eram de péssima qualidade, bem como a impressão; mas barato. Aliás, muito barato. Era o que podia suportar na altura. No entanto, foi o livro certo para
darmos início à nossa história: o “Palestina Sobre uma Tela” de André Ouro Verde. A impressão podia ser miserável, mas o conteúdo do livro, os valores que a sua história defende, representavam, e representam, tudo aquilo que a Velha Lenda é. Foi desta forma que o desejo se tornou uma realidade, com um orçamento microscópico, longas noites sem dormir e muito trabalho. Duro, ainda assim, gratificante.

À sua volta houve mais vozes de apoio ou de dissuasão?
Mais “vozes de apoio”. Tive a minha família: os meus pais, os meus avós maternos e o meu irmão. Apoiaram-me desde o primeiro dia. Ainda apoiam. Mas seria uma injustiça demasiado grande não reconhecer o apoio de colegas escritores. O Francisco Ramalheira, por exemplo. A nossa ligação deu-se por partilharmos a mesma paixão pela literatura fantástica. Ele leu o meu livro, e eu li o dele antes de sequer envergar um selo editorial; sempre tive consciência do potencial que o Francisco tinha. Foi por isso que, antes de existir Velha Lenda, ele recebeu o meu convite para ser um dos primeiros autores do catálogo. E aceitou, mesmo sem ter uma noção exacta daquilo que o esperava. Apoiou-me, ajudou-me naquilo que estava ao seu alcance, e acreditou sempre na Velha Lenda tanto como eu. Por outro lado, também existiram as ditas “vozes de dissuasão” e há que reconhecer o poder delas, pois, no meu caso, funcionaram como combustível. Uma em particular, de um amigo que tive em tempos, deu-me o empurrão que precisava.

Alguma vez sentiu que ser mulher poderia ser um entrave para levar este projeto em frente?
Não só o senti, como ainda sinto.
Há uma descrença e uma condescendência inevitáveis. Olhamnos com uma piedade que jamais irei compreender, crédulos de que somos inofensivas, umas tolas sonhadoras e umas desmioladas. Tive o representante de uma gráfica a insinuar que uma “miúda de vinte e quatro anos” (na altura) não podia decidir qual era o melhor método de impressão; que ele, um cavalheiro experiente, é que sabia o que era bom e eu tinha a obrigação de acatar as suas vontades (entendase que não me estou a referir a sugestões normais, mas sim a um tratamento agressivo e até insultuoso). Como é óbvio, saí da presença desse indivíduo e encontrei uma gráfica onde me respeitam como profissional. Também já me sentei à mesa com a dona de uma livraria, uma senhora de idade avançada, que categorizou a minha editora como “um sonho de miúda sem futuro”. E, para continuar “as aventuras de ser uma jovem mulher num mercado preconceituoso e antiquado”, ainda fui forçada a ouvir da boca do dono de outra editora que “as mulheres são demasiado emocionais, já os homens são assertivos” e que isso, no final, “fazia a diferença entre um bom e um mau profissional”.
Mas estas coisas que sofro por ser mulher, quer no mundo dos negócios no geral, quer no mercado literário, tornam-se insignificantes. Ao fim do dia, posso deitar a minha cabeça na almofada e descansar sabendo que não só estou a seguir os meus valores, como a minha editora está em constante crescimento, com saldo positivo e sem dívidas. O que é dizer muito num mercado antiquado e dominado por homens, onde abundam as falências e as dívidas milionárias a gráficas.

O que é preciso para arrancar com este negócio?
Respeito pela literatura e sangue-frio.
Quando alguém decide abrir, suponhamos, uma padaria, informa-se onde conseguir as licenças e os ingredientes, aplica as regras sanitárias, e garante que, das duas uma, ou sabe fazer o pão ou tem um padeiro para o fazer. No entanto, na literatura, existe um pensamento ridículo onde todos acham que basta pegar num livro, colar o seu conteúdo num esquema que baixaram da internet e pagar a uma gráfica qualquer. Acham que isto basta. Que fazer o mínimo é suficiente. Não é verdade. A literatura é como qualquer outro negócio. Para uma editora funcionar, o seu fundador (ou fundadores) tem de dar o máximo, às vezes, ir para além dele. São precisos  evisores, editores, designers, um distribuidor, uma boa gráfica, uma relação saudável com influenciadores digitais e meios de comunicação para a promoção das obras, e escritores talentosos, trabalhadores e satisfeitos. Mais do que isto? O desejo de evolução constante.
Todas as áreas necessárias para o funcionamento de uma editora têm de ser satisfeitas, caso contrário, será apenas uma nova marca para asfixiar o mercado. Tudo isto conjugado com sangue-frio para que quem está na liderança do negócio consiga lidar com as injustiças de um mercado viciado.

Porquê o nome Velha Lenda?
Desejava fundar uma marca que tivesse algum impacto, que cheirasse a livros velhos e a respeito, com capacidade suficiente para sobreviver às gerações vindouras. E as lendas duram séculos. Mudam conforme as épocas e os lábios pelos quais são contadas. Das velhas lendas conhecemos inúmeras versões. Fundar uma “Velha Lenda” fez todo o sentido.
Desejo que a minha editora acompanhe as mudanças dos tempos e sobreviva, preservando a sua identidade original, mas adaptando-se às vontades das novas gerações. E que seja falada durante longos anos. Como as lendas.

Qual a missão da editora?
As Edições Velha Lenda têm por missão serem criativas, empreendedoras e sempre independentes. Queremos dar oportunidades a novos nomes nacionais e às suas obras, levar até ao mercado histórias modernas e interessantes; preencher a lacuna. E, em simultâneo, fazer uma aposta equilibrada que vá de encontro à procura existente.
Trabalhar para o entretenimento do leitor e provar a 61% da população portuguesa (que de acordo com as últimas pesquisas não leu em 2021) que a literatura é mais do que “Os Maias”; isto também é parte da nossa missão.
Ler é ver um filme de acordo com os nossos gostos. É trilhar uma floresta encantada e apaixonar-se por uma fada, é viver uma aventura numa selva repleta de perigos, é sobreviver a uma mansão assombrada, é decifrar enigmas e descobrir o culpado de um homicídio, é… tanta coisa! Gosto de classificá-la como sexo para o cérebro. A missão da Velha Lenda é provar isso mesmo aos portugueses — há um livro para todo o tipo de pessoa.
Queremos trabalhar igualmente para os escritores, para os amadores e os profissionais. Que a nossa casa editorial seja um lugar seguro com o qual qualquer um possa ambicionar ter um carreira decente.

No catálogo da Velha Lenda há uma aposta plena em obras nacionais. Temos aqui a prova de que se escreve bem em Portugal?
O nosso catálogo é composto unicamente por obras nacionais. Alguns nomes de autores podem parecer estrangeiros, como é o caso de Hélène White, mas tratam-se apenas de heterónimos. Quanto à questão… é difícil responder. É preciso provar que se escreve bem por cá? Eu sei de onde veio esta questão, o que a motivou. Na última década, e é com tristeza que o recordo, tivemos editores e alguns autores aclamados a declarar que “a nova geração de escritores possui menos qualidade” que as anteriores. Revolta-me. Portugal sempre teve, e sempre terá, escritores de elevada qualidade. Não importa o tempo. Só o elitismo sujo é que lhes rouba o mérito, nada mais.
Nos Estados Unidos, por exemplo, não existe este discurso. Em Inglaterra também não. Na maioria dos países ninguém coloca em causa a qualidade dos seus escritores, nem se fala de autores nacionais. Não há essa necessidade, talvez por existir um respeito pela arte que é a escrita.
Mas sim, quero acreditar que os autores que compõem o catálogo da Velha Lenda são a prova de que em Portugal existem muitos escritores de excelência e obras ao nível de qualquer bestseller do New York Times.

 Como seleciona as obras que devem ser publicadas?
Para além de uma certa habilidade fundamental no que à narrativa diz respeito, procuro histórias que não sejam indiferentes. Eu nem sempre publico livros que gosto. É a minha regra de ouro como editora e aquilo que me separa da leitora e da escritora. Depois de avaliar se a escrita de um autor tem potencial suficiente para ser publicada, avanço na leitura da história. Esta tem de estar bem construída, tem de fazer sentido de início ao fim, e revelar trabalho. Mas, tenho de gostar ou não gostar dela. Se a história me for indiferente, não a publico. Uma história que não desperte qualquer emoção, ou, pelo menos, uma pontada de curiosidade, não está pronta para ser lida.
Contudo, não se resume apenas à obra em si. A componente humana do escritor influencia muito a decisão final. Se me perguntassem se estava disposta a publicar a obra-prima de alguém com comportamentos racistas, a resposta seria não. Há valores que se sobrepõem sempre à arte.

Que dificuldades têm atravessado neste tempo de vida da editora?
Distribuição. O mercado está monopolizado pelos grandes grupos, pelo que não há lugar para editoras pequenas nas boas empresas de distribuição. Mesmo assinando contrato com uma nova distribuidora no mercado, continuamos limitados. Entrámos num dos maiores pontos de venda de livros do nosso país, é certo, ainda assim, sem garantias de exposição. No entanto, acredito que com persistência e bons autores vamos conseguir superar as adversidades actuais.

O que é mais recompensador neste trabalho?
Sem dúvida que ver o orgulho no rosto dos autores. E, como não podia deixar de ser, a satisfação dos leitores.

Como se sente quando se sabe que em Portugal mais de metade dos portugueses não leu um livro o ano passado?
Determinada a mudar um pouco essa realidade com obras interessantes e autores incríveis. Só temos de provar aos portugueses que a leitura não é aborrecida quando encontramos a obra certa.

O que é preciso fazer para mudar este desinteresse pelo livro e cativar novos leitores?
Informar as pessoas. E acabar com o medo infundado de se apostar em qualquer género, metendo de uma vez por todas na guilhotina a narrativa de que “os clássicos é que são bons”.
São bons? Sem dúvida. São os únicos? Não. Existem livros leves, modernos e entusiasmantes que são formidáveis. Um exemplo estrangeiro disso? “A Court of Thornes and Roses” da Sarah J. Maas e as respectivas continuações. Estão longe de ser um clássico, ou uma obra-prima da literatura fantástica, mas estão a mover centenas de milhares de leitores à volta do mundo. Porque são divertidos, leves, criativos! Eu sou uma fã declarada de J.R.R. Tolkien, gosto daquela “velha fantasia”, ainda assim, rendi-me à saga da Sarah J. Maas. No entanto, isto só aconteceu porque me livrei dos preconceitos que tanto se gosta de apregoar cá em Portugal.
Se mostrarmos às pessoas que existem livros simples de ler e com histórias brilhantes, talvez elas se entusiasmem mais. Talvez comecem a ler. Digam às pessoas de idade que existem histórias nos livros semelhantes às novelas que vêem na televisão. Digam aos mais novos que nos livros podem encontrar dragões, fadas, elfos, criaturas mágicas como aquelas que vêem nos desenhos animados. Informem dos mais novos aos mais velhos. É a única forma de se fomentar a leitura.

Muitas mulheres preferem esconder o género, através de pseudónimos ou usando apenas o apelido nas obras que assinam, de forma a não afastar leitores. Atualmente, isso ainda é necessário?
Mais ou menos.
De acordo com a sociedade: Um homem a escrever literatura erótica é um “grito de liberdade e igualdade”. Uma mulher a escrever literatura erótica é só uma “autora medíocre”. O homem que trabalhou vários anos numa obra de literatura fantástica é aplaudido.
A mulher tem as suas capacidades questionadas até por leigos. Do homem que conquistou um contrato literário internacional, no valor de centenas de milhares, diz-se que é um “visionário”. Da mulher diz-se que “teve sorte”.
Não o classificaria como “necessário”, mas não existem dúvidas de que na maioria dos géneros possuir um pénis é uma grande
vantagem.

Que deseja para o futuro da Velha Lenda?
Crescimento. Reconhecimento. Inovação. Desejo que a Velha Lenda se torne numa grande casa editorial com a capacidade necessária para receber a maioria dos escritores e das escritoras com potencial que nascem neste nosso país. Que dentro de uns anos nos vejam como o porto seguro ou o ponto de partida para todos aqueles que ambicionam ser autores, e que as nossas obras tenham o reconhecimento que merecem.
Desejo… que a Velha Lenda consiga mudar a forma como se faz, se vê e se lê a literatura em Portugal.

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