O rapper T.I é um dos assuntos do momento. Não pela sua música ou pelos trabalhos como ator, mas porque revelou que leva a filha Deyjah, agora com 18 anos, anualmente ao ginecologista para verificar o estado do seu hímen. Ou seja, para saber se a jovem ainda é virgem.

O artista participava no podcast “Ladies Like Us”, conduzido pela modelo Nazanin Mandi e pela maquilhadora Nadia Moham, quando uma das mulheres lhe perguntou se já conversou com os seus filhos sobre sexo. Foi aí que T.I. fez uma confissão acerca da filha adolescente que correu o mundo.

“Não só tivemos ‘a conversa’ como fazemos visitas anuais ao ginecologista para verificar o hímen dela,” confessou. “Sim, eu vou com ela (..) Posso dizer que, no seu 18º aniversário, o hímen dela continua intacto.”

Apesar de os médicos já lhe terem explicado que o hímen de uma mulher pode ser rompido de outras formas que não envolvem necessariamente sexo, incluindo durante a prática de atividades físicas como, por exemplo, ciclismo, atletismo e equitação, a estrela insiste que a filha não é atleta e, como tal, os resultados dos testes comprovam a sua “pureza”.

“Eu respondo: ‘Olhe, Doutor, ela não monta a cavalo, não anda de bicicleta, nem pratica desportos nenhuns, portanto verifique o hímen, por favor, e dê-me os meus resultados expeditamente,” contou o rapper.

Quer seja pelo uso da expressão “os meus resultados”, quando, na verdade, são de Deyjah, pela exposição pública da privacidade de uma adolescente sem o seu consentimento ou, não menos importante, pela forma aparentemente debochada como as apresentadoras – sublinhamos que estamos a falar de duas mulheres – trataram o tema delicado (entretanto, já pediram desculpa), certo é que o episódio gerou uma discussão a nível internacional. Aliás, a Planned Parenthood, organização sem fins lucrativos que provê cuidados de saúde reprodutiva nos Estados Unidos e em todo o mundo, sentiu a necessidade de reagir com seis publicações no Twitter.

Com a ajuda do Dr. Joaquim Neves, médico especialista em obstetrícia e ginecologia, e da sexóloga Vânia Beliz, decidimos explorar o conceito de virgindade e as ideias erradas que continuamos a perpetuar enquanto sociedade. Leia as entrevistas completas, abaixo.

Dr. Joaquim Neves
O que é e para que serve o hímen? 

Trata-se de uma película de pele que se encontra na entrada da vagina e a sua função é proteger das infeções genitais na infância.

Existe algum procedimento médico que possa determinar, de forma infalível, se uma mulher é ou não sexualmente ativa?

Não, porque existem variantes* do hímen. Por exemplo, ele pode ser complacente, um tipo mais mais elástico e que tende a não romper durante o primeiro contacto íntimo. Portanto, ele não constituiu uma boa prova de virgindade.

*Alguns dos diferentes tipos de hímen

Então, o hímen nem sempre é completamente rompido na primeira experiência sexual?

Na maioria dos casos, sim. Mas, como existem variantes, por vezes, podem ficar resquícios do hímen, inclusive até ao momento em que a mulher dá à luz.

Com que idade recomenda que as jovens tenham a primeira consulta de ginecologia?

Não existe uma idade crítica para a primeira avaliação em ginecologia; as primeiras menstruações, se muito abundantes, dolorosas ou muito irregulares, podem ocasionar a primeira visita.

Vânia Beliz
Afinal, o que significa ser virgem?

As pessoas continuam a associar muito o conceito de virgindade ao hímen, mas ele ultrapassa isso. O conceito de virgindade está relacionado com a primeira relação sexual. Eu até costumo acrescentar que é a primeira relação sexual consentida. Isto porque em situações de abuso ou de violência, a mulher pode sentir-se virgem, uma vez que não houve um consentimento da sua parte para o ato sexual.

Ter o hímen intacto é sinónimo de virgindade e vice-versa?

Existe uma membrana na entrada da vagina, que tem diferentes características em todas as mulheres, nomeadamente no seu tamanho, forma, elasticidade e resistência. Há mulheres que são virgens e não têm essa membrana, por exemplo, devido à prática de atividades físicas. Também há casos de virgens que não sangram ou sentem dores na primeira vez. Além disso, o facto de alguém ter o hímen intacto, não significa que não tenha outras práticas sexuais, como masturbação, sexo anal ou sexo oral. Portanto, vincular a virgindade à existência de uma membrana é muito redutor.

Que consequências têm essas ideias erróneas?

Em Portugal, há muitas mulheres que são vítimas de discriminação devido a esta questão – para não falar de outros países, onde chegam a ser mortas se não sangrarem na primeira vez. Isto é de uma violência física e psicológica inimaginável. E temos, por exemplo, casos de meninas que não querem usar tampões e que se recusam a inserir cremes ou óvulos na vagina porque acham que vão perder a virgindade.

Quando falamos em virgindade, estamos a falar de uma construção social?

Sim, a virgindade é, cada vez mais, uma construção social. Ainda que exista uma questão biológica, de haver efetivamente uma membrana à entrada da vagina, que, normalmente, rompe na primeira relação sexual, a questão de não ser assim para todas as mulheres faz com que  o rompimento do hímen e a perda da virgindade não sejam eventos mutuamente exclusivos.

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