Aconteceu outra vez.

Dos Estados Unidos chegaram-nos as imagens chocantes do assassinato de George Floyd sob custódia da polícia em Minneapolis, no estado do Minnesota. Imagens chocantes, sublinhe-se, porque durante oito minutos e quarenta e seis segundos é possível ver um agente da autoridade branco a sufocar Floyd, que está algemado e deitado no chão, ignorando as súplicas por ajuda até bem depois de ele dar o último suspiro. 

O vídeo tornou-se viral e deu azo a uma onda de manifestações que chegou aos 50 estados do país e, mais tarde, a vários países do mundo, dando início a uma conversa global muito necessária (e incómoda para alguns) sobre racismo.

“Estamos a falar de anos sem fim de brutalidade”, afirma o ator Paulo Pascoal, que viveu em Nova Iorque durante 11 anos e conhece bem a realidade americana. “Muitas das imagens que estão a ser usadas para retratar aquilo que está a acontecer foram feitas nos anos 50, 60, 70. Estamos a reutilizar vídeos com citações de Martin Luther King, Malcolm X, Booker T. Washington e Angela Davis. Isso é reflexo de há quanto tempo esta luta dura”.

O número de vítimas às mãos da polícia na América afeta esta comunidade de uma forma desproporcional, diz um estudo levado a cabo entre 2013 e 2019. Apesar de comporem apenas 13% da população, os americanos negros têm uma probabilidade quase três vezes maior de serem mortos pela polícia do que os americanos brancos. Além disso, mais de 17% dessas vítimas estavam desarmadas quando morreram – um dos números mais altos entre todas as raças e etnias analisadas.

Se não tivesse sido gravado por bons samaritanos, o caso de George Floyd poderia ter sido mais um a entrar discretamente para as estatísticas. Mas o mundo viu e decidiu não ficar calado. Graças a isso, já há avanços: o principal agente envolvido foi preso e a investigação do homicídio passou das mãos do advogado do condado de Hennepin, Michael Freeman, considerado “altamente incompetente” pelos ativistas e protestantes, para a alçada do procurador geral do Minnesota, Keith Ellison. Provas de que a união faz mesmo a força.

Como é que soubeste do assassinato de George Floyd?
É curioso porque eu tenho um ritual muito específico de manhã: gosto de ver o nascer-do-sol, beber um café e ler um livro ou ouvir um podcast. Mas, nesse dia específico, resolvi ir ao Instagram e vi o vídeo na página da Madonna. De seguida, li os primeiros relatos do que se tinha passado e percebi que se tratava de mais um caso de brutalidade. Fiquei com as emoções à flor da pele e senti um mal-estar, agonia e raiva instantâneos.

Porque é que este caso tocou as pessoas de uma forma diferente?
As pessoas testemunharam, em tempo real, alguém a ser asfixiado enquanto pedia por ajuda. Pedia para o porem de pé. Pedia água. A clareza com que tudo aconteceu nos nossos ecrãs foi muito direta. Foi uma demonstração eficaz do sistema e daquilo que é o racismo. Nós vimos alguém a morrer durante 10 minutos. Não havia como ficar indiferente.

Então, dirias que houve um despertar coletivo de consciência para aquela que é a realidade de um negro na América (e não só)?
Na minha opinião, sim. O racismo sempre existiu, mas agora está a ser filmado. Há esta dinâmica nova das redes sociais, que fazem com que a informação circule com muita facilidade. Uma coisa é a notícia chegar-nos às mãos editada e com algum delay em relação aos acontecimentos; outra é teres a oportunidade de ver tudo praticamente em direto. Eu penso que é isso que está a mexer com as pessoas e não lhes resta grande alternativa, a não ser indignarem-se. 

“Agora já não há intermediários entre o desenrolar dos acontecimentos e receber a informação. Nós estamos a ver com os nossos próprios olhos; já não estamos só a ouvir o que nos contam”.

As redes sociais estão a mudar aquele que poderia ser o “desfecho natural” de um caso como este?
As redes sociais têm tido um papel fundamental na divulgação deste tipo de episódios. De sublinhar que há plataformas que não usam essa informação para criar uma base de apoio e uma estrutura que defenda as vítimas, mas sim para terem números e visualizações. É importante que haja essa consciência. Não obstante, as pessoas estão cansadas de ver violência e de se sentirem brutalizadas, e estão a gritar online para que isto acabe. Eu temo que não seja o suficiente.

Daí o protesto ter passado do online para as ruas?
Eu sou sempre a favor dos protestos pacíficos – se bem que tenho as minhas dúvidas em relação à sua eficácia. Não podemos cair nessa questão da violência, porque ela confirma certas ideias pré-concebidas como, por exemplo, que os negros são agressivos, selvagens e destroem coisas. Tenho estado em contacto com a minha família que ainda vive nos Estados Unidos e sei que, em muitas ocasiões, quem incita a violência nesses protestos são pessoas infiltradas e que têm a sua própria agenda. Este é um assunto sensível. Não concordo com toda a violência, porque acho que se perde muito com isso, mas não posso condenar a forma como quem participa nessas marchas e acredita na causa escolhe expressar descontentamento e revolta.

Consideras que os meios de comunicação social têm feito uma cobertura justa e fidedigna das manifestações?
Penso que estamos num bom caminho, especialmente se nos lembrarmos de que houve uma altura em que a forma como as notícias eram manipuladas e os jornalistas tentavam encontrar antecedentes criminais das vítimas, de modo a descredibilizá-las, era demasiado descarada. Um aspeto positivo nos Estados Unidos é que eles têm muitos média alternativos e instituições negras que conseguem contrapor as notícias vindas dos meios de comunicação mais tradicionais; algo que não acontece aqui na Europa. Em Portugal, por exemplo, ainda há a tendência de deixar aquele “mas” no ar. Eu costumo dizer que o racismo aqui português ainda é muito primitivo e colonial. As pessoas ainda têm dificuldade em reconhecer a verdade na voz de um negro, que é sempre investigado, posto em causa e não tem o benefício da dúvida.

“O racismo é uma invenção branca. Nós não tivemos um parecer na construção hierárquica. Para algumas pessoas estarem no topo da pirâmide, muitas outras tiveram de ficar na base”.

A chegada de Donald Trump à Casa Branca prestou um desserviço às tensões raciais que já existiam nos Estados Unidos?
Sem dúvida. Trump deu liberdade às pessoas que outrora eram comedidas e recatadas nas suas demonstrações de racismo. Ele passou a dar voz a toda essa parte da América que é racista e supremacista. A meu ver, está tão focado em querer fazer história, independentemente do significado desse legado, que vai destruir um país que, até agora, continua a ser o melhor lugar onde um podia ter crescido. O racismo é um crime e a única forma de travá-lo é aplicar sanções pesadas, de modo a acabar com o sentimento de impunidade. 

Qual é a tua posição em relação à afirmação “All Lives Matter”?
O “All Lives Matter” é insultuoso e essas pessoas não estão a encarar o que realmente se passa nos Estados Unidos. Uma vida branca não sai de casa para a escola com medo de morrer no caminho. Uma vida branca não sofre a discriminação de ouvir que não tem o ‘perfil adequado’ para um emprego por causa da cor da pele. Uma vida branca não é aconselhada a fazer um curso profissional, porque não vai ter hipóteses de entrar numa boa faculdade. Essas pessoas estão a tentar aliviar uma dor que não sentem ao desvalorizar a de quem a sente diariamente. O nome do movimento é Black Lives Matter e isso tem uma razão de ser.

É desta que as vozes negras vão ser ouvidas e compreendidas?
Eu acredito que sim. Estamos todo a ganhar mais consciência. A COVID-19 trouxe uma horizontalidade que pôs toda a gente a pensar ao mesmo tempo. Vai surgir uma fase pós-pandemia marcada pela empatia e pela preocupação com os outros, porque ficou claro que nós somos ‘seres insignificantes’ e fazemos parte de algo muito maior do que nós. As pessoas estão a focar-se mais nos seus princípios, na profundidade dos seus valores, na ética e em construir algo a partir daí. Temos de deixar de ver os negros como ‘os outros’ e passar a ver a sociedade como um todo.

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