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Casais improváveis: afinal, os opostos atraem-se?

Há pessoas que não estávamos mesmo a imaginar juntas. Fomos saber se é mais forte o que nos une ou o que nos separa.

Catarina Fonseca

dimdimich

*artigo publicado originalmente na revista ACTIVA de setembro de 2018

Como dizia alguém, ‘casais improváveis são todos…’ Mas imagine aqueles seus amigos que ninguém está mesmo a ver juntos, de tal maneira o feitio, as circunstâncias ou a vida os separou. E, de repente, já estão casados há… espera… 30 anos?!!
É o caso de Rita e João, 45 anos, eles próprios assumidos como ‘o típico caso da betinha com o metaleiro’. “Conhecemo-nos com 18 anos”, lembra Rita. “Eu era a certinha, cumpridora, nem um cabelo fora do sítio, e estava a tentar entrar na faculdade. Ele era o estouvado, o rebelde, o cabeludo heavy-metal que não ia às aulas, com mais namoradas do que as que conseguia contar.”
Os amigos avisaram que não tardava até quebrarem. Pois tardou. Tardou até hoje, quase 30 anos depois. Quando se viram, a atração foi mútua. “Fomos a ‘curte’ um do outro numa festa. Eu tinha outra pessoa mas acabei tudo rapidamente. Ele disse: ‘Aquela não me escapa’. O problema é que ele dizia isso de todas e de facto nenhuma lhe escapava. Toda a gente me avisava: ‘O João vai-te enganar daqui até à lua.”
E isso não a assustou? “Claro que assustou, mas quando temos 18 anos não pensamos.” As diferenças eram mais que muitas: “Basicamente, eram todas, das mais importantes às mais ridículas. Eu sou antitabaco e ele fumava que nem uma chaminé, eu gostava de Roberto Carlos, ele de metaleiros, eu deitava-me às 10, ele chegava a casa às 6 da manhã.”

Do kizomba ao heavy metal

O namoro dura até hoje. “O mais engraçado é que não mudámos os nossos gostos para agradar ao outro. O que continua a sustentar-nos é o respeito e a confiança. Eu sempre aceitei que ele precisava de sair sozinho algumas vezes, e nunca tentei impedi-lo. Sempre confiei a 100%.”
Mas como é que se confia num bon-vivant com fama (e proveito) de engatatão? “Se calhar acho que acredito em mim. Sempre pensei: ‘É ele que está a conseguir um troféu’. E as coisas comigo foram todas com muita calma. Ele não fugiu porque eu era qualquer coisa de muito diferente daquilo a que estava habituado.”
Defende que os opostos não se atraem, só dificultam uma relação. “Porque ao fim de algum tempo, aquilo a que achávamos graça perde a novidade e torna-se simplesmente incómodo. E aí vamos ter de arranjar estratégias para lidar com isso. Com o tempo, acabámos por nos influenciar um pouco: eu fiquei mais extrovertida e ele mais calmo. Mas cada um continua a ir aos seus concertos com os seus amigos.”
Houve um equilíbrio que foi preciso encontrar. “Por exemplo, consegui convencê-lo a ter aulas de kizomba comigo, mas quando aquilo se arrastou mais um mês, não tive coragem para lhe pedir isso. Não devemos forçar a barra, devemos perceber quando alguma coisa está a ser um stresse para a outra pessoa.”
Ao fim de quase 30 anos, as diferenças continuam lá: “Ele diz que não é benfiquista, é anti-Sporting (risos). Não é de esquerda, é antidireita. Ou seja, ele não é as coisas dele, ele é anti-eu! Também sei que ele diz isto porque adora tirar-me do sério. Mas ambos sabemos quando parar. E depois, numa coisa que tenha mesmo importância, ele é o primeiro a apoiar-me. Naquilo que é realmente essencial, estamos juntos. E o mais importante é que somos o melhor amigo um do outro. Não competimos. Conheço casais que vivem em competição. É um horror, não percebo, os casais juntam-se para se apoiarem, não para andarem numa guerra. Mas a grande maioria desses já estão separados.”

‘O que mais me dói é lavar as T-shirts do Benfica’

”O Rui é um marido fantástico. Sempre me apoiou em tudo e foi maravilhoso quando o nosso filho nasceu. Mas depois, pronto. Há isto.” ‘Isto’ é uma diferença que deixa Patrícia, 35 anos, doente: ela é do Porto, o marido, do Benfica. “Isto pode parecer ridículo, mas para mim é uma tristeza, porque gosto genuinamente de futebol, e o meu sonho sempre foi ter uma daquelas famílias que vão juntas ver os jogos. E não tenho isso. Da última vez que houve um confronto direto, fui ver o jogo, ganhei, cheguei a casa e fingi que vinha do cinema.”
Aprendeu a defender-se, a bem da harmonia familiar. “Apesar de tudo, acho que lido com isto melhor que ele. Os homens, quando nós festejamos, acham sempre que estamos a gozar com eles, é muito irritante, são tão infantis.”
Claro que o filho Diogo, 5 anos, já foi ‘arrebanhado’ para o clube paterno. “Nós vivemos perto do Estádio da Luz, o pai começou a levá-lo aos jogos e a partir daí ficou tudo perdido. Houve uma fase em que eu falava no Porto mas ele irritava-se imenso, de maneira que acabei por desistir.”
No mundo partilhado do amor pelo futebol há uma paixão que une a família: a seleção. Ah, e o Cristiano Ronaldo. “Nunca fomos todos a nenhum jogo, a não ser os da seleção. E o Dio-
go também não tem sentido de humor. Da última vez que festejei um golo do Porto, ele virou-se para mim e disse que eu não tinha de fazer a dança da vitória... Expliquei que estava apenas a celebrar, mas eles levam tudo para o lado pessoal.”
O que mais lhe dói: as T-shirts do Benfica que tem de lavar – à mão – todas as semanas. “Irrita-me mais do que tudo. Já pensei pôr uma mola fraca no estendal (risos) mas depois tenho pena. E convivo diariamente com cânticos. Eles cantam ‘Eusébio és o nosso rei’ como a minha mãe reza a Nossa Senhora. Para o meu filho, o Eusébio é da família dele, é uma espécie de avô.”
Claro que quando o Benfica perde, consola o filho. “Digo-lhe: ‘Deixa lá, para a semana há mais, não fiques triste.’ Mas é cinismo puro. Cinismo e amor de mãe. Quanto ao Rui, tentamos falar o menos possível sobre esse assunto.”

Afastados pela diferença

“Os casais que não comunicam arranjam escapes”, explica o terapeuta Tiago Lopes Lino. “Agora, há um fenómeno muito comum em que os homens se fecham em jogos online. É uma fuga à relação, como o trabalho. Para eles, o valor família é muito poderoso, mas aquilo que eles têm já não é aquilo que podemos considerar uma família.”

‘Perguntam se é avô do filho...’

Quando Madalena e António se conheceram, no sítio onde trabalhavam, a atração foi imediata. Estavam ambos no fim de uma relação, começaram a conversar, a sair, e o namoro pegou. Pormenor: ela tinha 24 anos, ele 44. Já estão casados há 20, e têm um filho de 11 anos. Na altura, o facto de ele ter mais 20 anos foi complicado, lembra Madalena. “Ele estava separado, já tinha filhos do casamento anterior, eu era muito nova, e quando se quer uma relação séria, pensa-se duas vezes.”
A família foi abertamente contra: “A minha mãe ficou chocadíssima. Dizia que eu era uma miúda e que ele me ia dar uma vida que não era para a minha idade, esse tipo de coisas. Mas fui em frente. Porque a idade para nós nunca foi importante.”
O chamado ‘choque de gerações’ nunca existiu: “O António sempre saiu com os meus amigos sem problemas, sempre viajámos muito, adorávamos meter-nos no carro e partir sem destino pela Europa, e eu dava-me bem com os filhos dele. No outro dia o meu filho disse ‘Quando tiver mulher e filhos, quero ser como vocês’. E aquilo comoveu-me imenso, pensei que pelo menos estávamos a fazer qualquer coisa bem.
Às vezes perguntam ao António se ele é avô do filho (risos), mas já estamos habituados a isso.”
Tem amigas que lhe dizem: ‘Quem me dera que o meu marido fosse como o António, que vai contigo para todo o lado.’ “Ele próprio não se sente ‘um velho’. Acho que a própria idade dele o choca (risos). Estamos juntos há mais de 20 anos, e acho que se tivesse ficado com a pessoa com quem estava aos 24 anos, agora estava separada. Para mim, a idade não é uma coisa que opõe necessariamente as pessoas. O que interessa é quem nós somos, não quantos anos já passaram por nós. Somos muito companheiros. Acho que a própria idade dele o tornou sempre mais compreensivo e calmo.”

Valores em comum

E então, depois destas histórias, o que é que se pode concluir? Que afinal os opostos até podem funcionar? Ou que a relação funciona apesar dos opostos, e não por causa deles? “Há alturas em que os opostos se atraem, outras em que as diferenças se transformam em dificuldades de entendimento”, explica Tiago Lopes Lino, terapeuta de casal. “Muitas vezes, quando procuramos o oposto, estamos a projetar-nos: procuramos no outro aquilo que gostávamos de ser. Por exemplo, uma pessoa muito desorganizada tende a admirar uma pessoa organizada. Por isso é que às vezes as pessoas diferentes se completam.” Mas estas diferenças são muitas vezes irrelevantes, porque aquilo que tem de ser semelhante são os valores. “A forma como expressamos esses valores é que pode ser diferente. Os problemas só surgem quando os próprios valores se opõem, ou seja, quando as pessoas não se assemelham nas suas características de base.”
Portanto, os opostos podem atrair em tempo de paixão, quando tendemos a ver no outro apenas as coisas agradáveis. Mas quando este período termina e essas diferenças começam a perturbar a relação, elas já não são tão engraçadas.
“Os casais que se mantêm juntos têm geralmente valores em comum. E não deixam que as ‘diferenças’ de gosto ou personalidade minem uma relação. O que é que pode acontecer: eu estou sempre à espera que o outro mude em função das minhas necessidades. E os conflitos acontecem quando o outro não cede e eu não estou disposto a ceder. Isto é que é fatal para uma relação.”

Se eu gosto de romance e ele de ação…


“Não vamos acabar uma relação porque um gosta de filmes de ação e o outro de filmes de romance”, explica o terapeuta Tiago Lopes Lino. “Ou encontramos um filme que tenha as duas coisas ou um vai para a sala 1 e outro para a sala 2. Fazer coisas sozinhos é muito saudável para uma relação. O que é que vamos fazer sozinhos? Aquilo que o outro não gosta de fazer connosco. E depois juntamo-nos para aquilo de que ambos gostamos. Mas temos de ter a robustez emocional para conseguirmos estar no cinema sozinhos sem pensar: ‘Olha ela agora está sem mim, acho isto inadmissível, porque é que ela não vem comigo?’ Tem de haver respeito, liberdade e confiança, sem cobranças.”

Tentar mudar o outro nunca funciona


Um conselho: se são muito diferentes, procurem aquilo que têm em comum, não tentem mudar o outro. “Claro que não temos de aceitar todos os comportamentos”, explica Tiago, “mas estamos a falar de diferenças de personalidade. Imagine que o outro é muito subserviente com o chefe e eu acho que ele devia ser menos assim. Mas eu sou mais assertivo, e não posso impor a minha maneira de ser ao outro, primeiro porque ele vai sentir isso como uma agressão, e depois porque nunca vai funcionar.”
Em conclusão, há três ideias a reter: “O mito de que os opostos se atraem dá-nos ‘permissão’ para nos relacionarmos com alguém muito diferente, uma atração muitas vezes física. Por outro lado, nunca somos totalmente opostos: temos sempre mais coisas em comum do que pensamos. E também, nestas relações, temos de perceber se algum deles está subjugado ao outro. Como é a distribuição de poder? As pessoas estão tão sedentas de uma relação que por vezes se subjugam a outro com valores muito diferentes para não ficarem sozinhas.”

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